Sax, tosse e gramofone

Ao rever na televisão o filme de Margarethe von Trotta sobre Hannah Arendt, reencontrei-me com sua melhor amiga, Mary McCarthy. Vocês não imaginam como fui fascinado por essa mulher (ainda sou, mas noutro grau), vidrado em seu olhar penetrante e desafiador. Os exemplos mais notáveis estão no livro de formatura da Universidade de Vassar, 1933, quando ela tinha 21 anos, e na foto de sua cobertura para a New York Review of Books de uma sessão do Senado americano sobre o Caso Watergate, quatro décadas mais tarde.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2014 | 02h05

Como resistir a uma mulher com aquela mirada fulminante e aquela inteligência? Edmund Wilson e Philip Rahv, para citar apenas dois pesos pesados que a tiveram nos braços, não resistiram.

Tentei entrevistá-la em Paris, em setembro de 1974, quando iniciava a etapa final de um ano sabático já com outro frustrado encontro em meu passivo: Gore Vidal, que só depois de caçá-lo em Roma e Ravello soube-o de férias na América. Vidal eu pegaria depois, no Rio, mas Mary ("Mary, Mary, quite the contrary" - quem criou esse bordão?) ou a pegava em Paris ou talvez nunca mais. Deixei-lhe um bilhete, na portaria do n.º 141 da rua de Rennes, onde ela morava com seu último marido, o diplomata James R. West. No dia seguinte, recebo no hotel sua resposta: pedia mil desculpas, mas não dava entrevistas quando estava escrevendo um livro; pelos meus cálculos, Mask of State; Watergate Portrait. E assim foi que nunca pude fitar de pertinho aquele olhar feiticeiro.

Na mesma viagem e ainda em Paris, contabilizei uma terceira frustração jornalística: entrevistar Julio Cortázar, que então chegara aos 60 e estava casado com Ugné Karvelis, uma tradutora lituana de maus bofes que conhecera na Unesco e ganhara fama (sem trocadilho) de "anjo tutelar" do escritor.

Fantasiara encontrá-lo no Flore ou no Deux Magots; procurava-o sem método nem afinco quando passava pelo Boulevard de Grenelle (com 1m93 de altura, era alvo fácil a qualquer distância); solicitei seu paradeiro à editora Gallimard; só não pedi ajuda a Davi Arrigucci Jr., que no ano anterior privara de sua intimidade, porque ainda não o conhecia. Nem a ele nem ao argentino Tomás Eloy Martínez, que dez anos antes publicara uma reveladora entrevista-perfil com Cortázar na revista Primera Plana, que Letras Libres vem de ressuscitar em seu último número, uma celebração do centenário, este ano, do autor de O Jogo da Amarelinha, que há 30 um câncer no pulmão (fumava intensamente) o fez vizinho de Baudelaire, Man Ray e Jean Seberg no cemitério de Montparnasse.

Cheguei a bolar algumas perguntas, anotadas num caderno há muito perdido, três ou quatro delas herméticas e lisonjeiras - ou lisonjeiramente herméticas, pois desejava dar-lhe a impressão de que lera sua obra com enorme interesse e atenção. Pelo menos duas delas, lembro-me com clareza, tratavam de música.

Cortázar era um tremendo melômano, aficionado por jazz, cuja influência sobre as inovações e improvisos de seus contos e romances, sobre seus takes e riffs narrativos, já rendera (e continuaria rendendo) um punhado de ensaios. Tocava piston, para desespero dos vizinhos, segundo Martínez, que depois se acostumaram. Não obstante, as três referências jazzísticas de O Perseguidor (incluído em As Armas Secretas, 1959, reeditado pela Cosac Naify) são saxofonistas.

Uma das perguntas girava justamente em torno desse instrumento. Johnny Carter, o dilacerado e drogado protagonista de O Perseguidor, ganha a vida tocando sax, como Charlie Parker, sua inspiração. Mas eu queria confirmar com o próprio autor se o nome do personagem é mesmo uma junção de Johnny (Hodges) com (Benny) Carter. Óbvio que é. Como óbvias são as similaridades entre Johnny Carter e Horácio Oliveira, o desajustado e desventuroso de O Jogo da Amarelinha (Rayuela). Se Bertrand Tavernier já tivesse realizado Por Volta da Meia-noite, poderíamos estender um fio entre Dale Turner (Dexter Gordon) e Johnny Carter, e entre os críticos de jazz Bruno V. (narrador de Rayuela) e Francis Borler (do filme de Tavernier).

A segunda pergunta musical dizia respeito à "pureza" sonora do gramofone. Seria menos uma pergunta do que uma provocação. Sempre me intrigou o fato de Cortázar preferir ouvir tangos de Gardel num gramofone, para fruí-los com a mesma sonoridade com que os contemporâneos do cantor os ouviam. Tal reverência me parecia, e ainda me parece, descabida, mero pernosticismo, na medida em que nossos ouvidos (entre os quais se incluíam os do escritor), "deformados" por outros tipos de sonoridade, exigiam, naturalmente, outra qualidade fonográfica, com menos ruídos, maior nitidez. Até Cortázar, que ainda pegou o gramofone tocando bolachões na casa dos pais, já tivera sua sensibilidade auditiva alterada pela sonoridade da vitrola.

Três anos depois do encontro que não tivemos, Cortázar ouviria, num aparelho estéreo, a gravação histórica do Concerto em Ré Menor de Beethoven, feita em 1947 entre as ruínas de uma Alemanha arrasada pela guerra, com regência de Wilhelm Furtwängler e Yehudi Menuhin ao violino. Lembra Aurora Bernárdez, tradutora, primeira mulher e herdeira do escritor, que ao ouvir a gravação Cortázar jamais reparava nas qualidades da música em si, da regência e da performance de Menuhin, mas somente "no golpe seco e claro de tosse" que se ouve apenas uma vez a certa altura do segundo movimento. Uma pequena tosse anônima que, durante 30 anos, adormecera nos arquivos da rádio France Musique.

O cronópio mais alto da literatura latino-americana vivia a especular sobre quem e como seria a dona da tosse (sim, para ele, era uma mulher, possivelmente judia), sobre o lugar em que ela se sentara naquela noite e sobre as razões que provocaram as linhas que Cortázar, numa folha de papel, escrevia naquele instante, como se a retomar, não mais em imagens, em sons, o blow up de outra e mais antiga ficção, um dia transformada em filme por Antonioni.

Nem se tivesse logrado falar com o escritor essa história teria entrado na conversa, o que, em retrospecto, ensejaria outra frustração.

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