Saviano troca mafiosos pela arte em novo livro

Para o escritor argelino Albert Camus (1913-1960), a arte não era algo que pudesse ser celebrado na solidão, mas "um meio de comover os homens". Para tanto, o escritor, segundo Camus, deveria aceitar dois encargos: estar a serviço da verdade e defender a liberdade. Essas palavras, pronunciadas em 1957, três anos antes de Camus morrer num acidente de carro, ficaram marcadas na memória do escritor italiano Roberto Saviano, de 31 anos, autor do polêmico livro "Gomorra", sobre as atividades dos mafiosos da Camorra, que vendeu mais de 2 milhões de exemplares na Itália e foi traduzido em 43 países. E foi pensando em Camus que ele batizou seu novo livro de "A Beleza e o Inferno", laureado em dezembro na quarta edição do European Book Prize, prêmio dividido com o finlandês Sofi Oksanen por sua novela "Expurgo". Saviano extraiu as duas palavras, beleza e inferno, da história de um subtenente alemão preso na Sibéria, contada por Camus em "O Homem Revoltado", que, passando frio e fome, construiu um piano de madeira, silencioso, cuja música só ele ouvia.

AE, Agência Estado

07 de fevereiro de 2011 | 09h48

É mais ou menos o que acontece com Saviano desde que "Gomorra" virou best-seller, foi transformado em filme de sucesso e empurrou seu autor para o inferno da clandestinidade, ameaçado de morte pela organização cujo crime denunciou, a Camorra napolitana, que hoje reúne mais de 100 "famílias" com 7 mil integrantes e já cruzou há muito a fronteira da Itália. A diferença entre Saviano e o personagem de Camus é que o jornalista e escritor não fabricou um piano, mas um livro silencioso para dividir com os leitores. Desta vez, os mafiosos ficaram em segundo plano, embora Saviano dedique um capítulo inteiro ao perfil de Joe Pistone, o agente do FBI infiltrado na máfia de Nova York, que inspirou o filme "Donnie Brasco", feito pelo diretor Mike Newell há 14 anos.

Em textos emocionados, Saviano presta tributo a outras pessoas que lutaram pela liberdade e a verdade, morrendo por ambas. O exemplo extremo é o da jornalista russa Anna Politkovskaia (1958-2006), assassinada em Moscou por suas denúncias contra as atrocidades praticadas pelos militares russos na guerra da Chechênia. Saviano, ao escrever há dois anos o prefácio da edição italiana do livro em que a jornalista relata esses abusos ("Chechênia, a Desonra Russa", 2003), se viu refletido no drama de Politkovskaia. Ela teve sua vida devassada, sobreviveu a um envenenamento, foi alvo de chantagem de oligarcas produtores de níquel e encontrada morta no elevador de seu prédio por não ceder aos poderosos - um deles preparou um dossiê difamatório sobre ela, que preferiu morrer a ser moralmente linchada. Saviano, mesmo escrevendo seus textos em quartos de hotéis e acompanhado permanentemente por seguranças, recebeu cartas ameaçadoras de advogados de mafiosos que acenavam com uma campanha midiática de difamação.

"A Beleza e o Inferno" começa como "Gomorra", relatando no capítulo inaugural as chacinas nos territórios corrompidos pela Camorra. Saviano dá nome e sobrenome dos mandantes dos crimes e dos mafiosos foragidos. Esse é o lado mais conhecido de Saviano. O menos conhecido é o de crítico literário e jornalista cultural. No segundo capítulo do livro, ele presta tributo à cantora africana Miriam Makeba, cujos discos foram banidos pelo governo sul-africano nos anos 1960. A surpresa maior de "A Beleza e o Inferno", no entanto, é a qualidade do texto do italiano como resenhista. Ele fala de escritores hoje pouco lidos, mas autores de obras-primas, como o escritor de língua alemã Uwe Johnson (1934-1984), tradutor de Melville. As informações são do Jornal da Tarde.

A Beleza e o Inferno - Roberto Saviano. Bertrand Brasil. Preço: R$ 35,10.

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