"Savannah Bay" traz embate entre juventude e maturidade

O mundo teatral de Marguerite Duras (1914-1996), tal como seus romances e roteiros para cinema, nunca é formado por histórias precisas, transparentes, desprovidas de ambigüidade. Ao contrário. O mundo dramático da autora de O Amante e Moderato Cantabile é composto por tramas em que a clareza importa menos que o clima, a poesia, o movimento subjetivo de cada personagem.Contam-se nos dedos as montagens de suas peças no Brasil. Houve uma produção memorável de A Amante Inglesa, com Paulo Autran e Tônia Carrero, nos anos 80. E uma asfixiante encenação de Agatha, dirigida por Roberto Lage, na década de 90. Além dessas, a dramaturgia de Duras tem sido ignorada pelos teatros.Por isso, é bem vinda a peça Savannah Bay, em breve temporada no Centro Cultural São Paulo. Ela é um embate entre juventude e maturidade, entre memória e esquecimento. Em um lugar indefinido do Oriente, Madeleine, veterana atriz que parece carregar em si toda a dor do mundo, é procurada por uma Mulher Jovem em busca de suas origens.A garota quer conhecer a história de amor de seus pais, que só existe na memória deteriorada de Madeleine. Para descobrir a verdade, a Mulher Jovem tem de proceder a uma lenta prospecção, que a qualquer momento pode ser destruída pela amnésia.Savannah Bay foi dirigida pelo cineasta Rogério Sganzerla que, pela primeira vez, envolveu-se em uma montagem teatral. A concepção do espetáculo pertence à atriz Helena Ignez. A intérprete deu-lhe a forma de um embate hierático, mas tocante, ambientado em um belo cenário do arquiteto Fernando Mello da Costa.As ambigüidades e as paixões de Marguerite Duras ganham bela tradução cênica nesta produção. Atuando com sua bonita e talentosa filha, Djin Sganzerla, que dá vida à Mulher Jovem, Helena Ignez, musa do cinema novo, atriz de filmes antológicos como O Padre e a Moça e O Bandido da Luz Vermelha, desenha uma Madeleine poderosa, angustiada, dilacerada entre o desejo de permanecer ?serena? com sua dor e o impulso de libertar-se da sombra das tragédias amorosas que a atormentam. A lendária Helena Ignez é uma intérprete vigorosa, que domina a cena com autoridade e fascina o espectador.Savannah Bay é envolvente, perturbador. Não pode deixar de ser visto por quem sai em busca de um teatro que provoca e faz pensar, algo bem distante do teatro como pretexto para a pizza do fim de semana.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.