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Savages conquista com som e fúria punk

A recém-formada banda inglesa trama furacão em seu disco de estreia

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2013 | 02h08

O hype em torno do Savages, um feroz quarteto feminino de pós-punk formado em 2011, é paradoxal à ascensão do grupo. Silence Yourself, o disco de estreia, seduz exatamente por sua aversão visceral (um delicioso dedo do meio) aos mi mi mis de sempre, ouvidos nos sons rotineiramente rotulados pela blogosfera indie como "the next big thing".

"Se o mundo calasse a boca, mesmo por um pouco, quiçá ouviríamos o ritmo distante de uma jovem e contundente canção", brada a vocalista Jehnny Beth (foto) em Shut Up, faixa que abre o fulminante disco. O mundo londrino não se cala desde 2012, quando o grupo fez um elogiado show de abertura para o British Sea Power. E mesmo antes de gravarem o primeiro disco, Savages já era a "melhor banda da Inglaterra", nas palavras da imprensa local. Esta ascensão prematura é o desafio sagazmente contornado pelo grupo em Silence Yourself (US$ 9,99, pelo iTunes), uma prova de que as moças têm estofo para superar o oba oba das profecias diárias.

A proposta é simples e destemida. Savages não usam instrumentos eletrônicos, samples ou outras armas do arsenal contemporâneo. Também não ambicionam inovações estéticas. Destilam com perfeição um apanhado de influências da brilhante leva de grupos que surgiram no final da explosão punk dos anos 70 - Joy Division. The Pop Group, The Slits. Jehnny Beth lembra Siouxie Soux via Karren O, dos Yeah Yeah Yeahs, e nada mais.

Mas a força não está nas referências (passam longe de associarem-se ao pós-punk por alguma proposta nostálgica). A força está na entrega de Gemma Thompson (guitarra), Ayse Hassan (baixo), Faye Milton (bateria) e Beth. Vide uma excelente filmagem ao vivo da banda, tocando a faixa City's Full em um inferninho londrino. A impressão é que o barzinho está prestes a desmoronar sob os gemidos de Jehnny Beth. Faye Milton arma uma tempestade brutal, corroída pelas cordas de Hassan e Thompson.

No disco, a performance não perde o fulgor, e parte do prazer de ouvir o trabalho é perceber que sua ebulição - um som que certamente seguraria um show após o Queens of the Stone Age - é confabulada por quatro magrelas com pretensões intelectuais.

Estas costuram as 11 faixas de Silence Yourself com reflexões sobre sexo e o papel feminino no cinema. Há um prelúdio tirado de um filme de John Cassavetes, que retrata uma atriz determinada a alcançar a fama. E Hit Me, uma das mais efervescentes do disco, canta "Ele me bateu, e foi tão gostoso", na voz da atriz pornô Belladona, que se tornou um símbolo dos aspectos negativos da indústria pornográfica, em 2003. Jehnny Beth não esconde a preferência: "Assisto a bastante pornografia. Tem sido muito importante para mim. Para que eu consiga me liberar das pressões do romantismo, o mito do prazer feminino", contou ao site Pitchfork, recentemente.

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