Ricardo Bufolin/Panamerica Press/CBG
Ricardo Bufolin/Panamerica Press/CBG

Saúde mental como prioridade: o que a desistência de Simone Biles na Olimpíada tem a ensinar? 

Especialistas ouvidos pelo ‘Estadão’ apontam que sofrimento emocional não é uma questão de escolha

Camila Tuchlinski e João Ker, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2021 | 10h00

Quando um atleta de alto rendimento se machuca e a lesão compromete seu rendimento, é indiscutível a interrupção da performance. Por que não conseguimos refletir da mesma maneira em relação à saúde mental? Esta é a indagação de Desirée Cassado, mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo. "É curioso como, até hoje, a gente lida com problemas de saúde mental como se eles fossem menos importantes do que os físicos, como uma fratura ou uma lesão no tornozelo que impede o atleta de fazer uma manobra na ginástica artística, por exemplo. A primeira reflexão que precisamos fazer é por que a gente tem tratado a saúde mental de uma forma tão distante de outras questões. Ela impacta de forma robusta a nossa atuação, seja no trabalho, nos relacionamentos ou em esportes de altíssimo rendimento”, afirma a especialista em Terapias Contextuais.

Nesta quarta-feira, 28, a Federação de Ginástica dos Estados Unidos (USA Gymnastics, na sigla em inglês) anunciou que Simone Biles não participará da final individual geral nos Jogos Olímpicos de Tóquio. "Após uma avaliação médica adicional, Simone Biles se retirou da competição individual geral final nos Jogos Olímpicos de Tóquio, a fim de se concentrar em sua saúde mental", disse o comunicado. “Assim que eu piso no tablado, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho de fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar meu bem-estar. Há vida além da ginástica", disse Biles. 

Ao admitir que tomava a decisão de não competir por enfrentar problemas psicológicos, a ginasta mostra ao mundo - o mesmo que acompanhava tudo ao vivo pela televisão - que saúde mental é prioridade e não sua atividade. E mesmo que seja a final da Olimpíada. Pelo menos é assim que pensam pessoas que sofrem com o problema e psicólogos entrevistados pelo Estadão.

Após o anúncio, Simone Biles chegou a ser duramente criticada na internet pela desistência, de maneira pejorativa, como se houvesse escolha diante da fragilidade emocional da qual passa. “Quando a gente fala em desistir de um sonho por causa da saúde mental, é como se a pessoa tivesse uma escolha. Quando uma pessoa fratura o pé, a gente não fala que ela ‘teve uma escolha’ de continuar ou não. Assim como quando uma pessoa está passando por um episódio de estresse, que pode se agravar para outras questões psiquiátricas, também não é uma escolha. Entendo que outros atletas são tolerantes a uma quantidade de dor e experiências desagradáveis muito maior do que as pessoas em geral. Diante disso, então, para o atleta abandonar uma competição, imagino que o grau de desconforto e o sofrimento emocional seja muito alto. Não havia outra escolha”, ressalta Desirée Cassado. 

Para ela, é preciso haver mais espaço para discutir saúde emocional no ambiente de trabalho, em casa, com os amigos. Além disso, buscar o autoconhecimento é essencial. “As pessoas precisam ter mais conhecimento sobre o que conseguem fazer e entregar de fato. Mas não conseguem fazer isso sozinhas. Só é possível, se o nosso contexto também for amigável”, acrescenta. A mestre em Psicologia acredita que o esporte começa a dar mais abertura para a reflexão. "Talvez por conta da maior presença das mulheres e da influência que estão tendo agora, esse ambiente esteja mais aberto para as questões emocionais. Então, antes de sucumbirem, os atletas conseguem avisar. Lembra do Ronaldo passando mal na Copa do Mundo (1998 contra a França), em frente a milhões de espectadores, sem nenhum cuidado da equipe técnica em relação à questão emocional? Nós sabemos o que pode acontecer com um atleta quando passa do limite. E fico muito feliz de ver atletas jovens, mulheres, negras colocando limites e cuidando da saúde mental antes que a carreira seja destroçada por um evento como este. É uma revolução. Uma revolução feminina na ginástica e no esporte e fico muito feliz de estar testemunhando isso”, destaca Cassado. 

A nota da Federação de Ginástica dos Estados Unidos não dá detalhes sobre o diagnóstico de Simone Biles. Porém, recentemente no Twitter, a ginasta explicou que sofre com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) desde a infância.

A psicóloga Maria Alice Fontes, doutora em Saúde Mental pela Unifesp, ressalta que o diagnóstico normalmente se associa a comorbidades como ansiedade. “As medicações para o TDAH só pioram o quadro pois, como são estimulantes, podem causar mais ansiedade. A pessoa fica preocupada o tempo inteiro. Pacientes podem evoluir para o famoso Burnout, que é o esgotamento total de suas capacidades, caso não se tratem”, analisa. 

A especialista em Terapia Cognitivo Comportamental ressalta que isso pode ocorrer com qualquer um, sendo ou não atleta. “Tem as pressões normais do trabalho e a gente lida com elas de acordo com nossa capacidade. Nossa saúde mental é um elástico que estica frente às dificuldades e, de repente, volta ao estágio inicial quando a gente melhora. Quando a gente não se cuida, esse ‘elástico interno’ vai esticando até eventualmente estourar. E aí a pessoa precisa parar, se cuidar para retomar o dia a dia”, diz.

A administradora Fernanda Carvalho, de 32 anos, mora em Brasília e sentiu que a pressão e a cobrança do trabalho aumentaram exponencialmente com o modelo híbrido entre presencial e home office em meio à pandemia. E, ao mesmo tempo, o medo de perder o emprego crescia. “O que mais me danificou foi o relacionamento profissional. Comecei a ser muito mais cobrada, em horários diferentes, seja fim de semana, tarde da noite. Com a junção dessas coisas, precisei de ajuda e comecei a fazer terapia”, conta. Hoje, em tratamento psiquiátrico e acompanhamento terapêutico, Fernanda diz que, como fã de Simone Biles, ficou “arrasada” com a escolha dela. Mas nada se compara à admiração que continua sentindo pela atleta e pela coragem demonstrada. “Ela sabe do potencial que tem e quem ela é. Isso é muito importante quando você decide dar um passo pela sua saúde mental, ainda mais na sociedade que, ainda hoje, é muito preconceituosa e tem um tabu muito grande sobre o tema.” 

A situação é parecida com a da advogada Grazielle Viana, de 28 anos, que mora em Caratinga. “Eu estava mal, ia trabalhar, não conseguia produzir e voltava a me sentir mal porque não conseguia render da forma que eu deveria”, afirma. Ela também faz acompanhamento com psicólogo e psiquiatra, e acredita que a atitude de Simone Biles pode incentivar a busca por saúde mental. “O ato dela é um marco porque isso não é falado, ainda mais para uma pessoa que está na posição que ela está. A Olimpíada vai passar, mas Simone vai continuar vivendo. A partir do momento que toma essa decisão, vai ser julgada, como foi também o meu caso. Mas é importante saber se proteger do que a sociedade e os outros falam e avaliar como isso poderia agregar ou piorar uma situação que já está frágil”, conclui.

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