Saudades daqueles bons tempos

Quarto e último filme da série Shrek retrata o ogro em crise de meia-idade

Critica, Marcel Nadale, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2010 | 00h00

Divulgação

 

 Quem gastou alguns lenços de papel para se despedir de Woody e Buzz em Toy Story 3 não terá de se preocupar com Shrek Para Sempre. O quarto filme do ogro também encerra uma franquia querida pelo público, iniciada em 2001. O tom, contudo, é mais leve que o do filme da Pixar. O máximo de maturidade que o roteiro permite é a crise de meia idade que deflagra a ação. Shrek, agora casado com a princesa Fiona e pai de três recém-nascidos, começa a sentir saudades da época em que era livre para fazer o que bem entendia. Mais importante, sente falta de ser respeitado como um ogro assustador, e não como um chefe de família devidamente domesticado.

Entra em cena o duende Rumpelstiltskin, emprestado pelos roteiristas Josh Klausner e Darren Lemke de um conto dos irmãos Grimm do começo do século 19. Naquela versão, a criatura ajudava uma donzela em troca de seu primogênito. No filme, a barganha sai mais em conta: ele oferece a Shrek a chance de reviver, por 24 horas, sua época de glória, mas exige como pagamento outro dia qualquer da vida dele. O ogro aceita, sem imaginar que o duende vai lhe roubar o dia do nascimento.

 

É quando Shrek Para Sempre se revela: a comédia nada mais é que uma versão de A Felicidade Não se Compra (1946), clássico dirigido por Frank Capra e estrelado por James Stewart. O protagonista descobre, por sua ausência, o impacto que teve no mundo - e aprende a valorizar a vidinha que, até há pouco, desprezava. Shrek sofre quando seu amigo Burro não o reconhece; admira-se quando vê que o Gato de Botas virou uma mascote gorda e preguiçosa; e, principalmente, fica de coração partido quando percebe que, sem seu amor, Fiona se tornou solitária e ressentida. Ela lidera um grupo de ogros (com vozes de Jon Hamm, da série Mad Men, e Jane Lynch, da série Glee) que luta para tirar Rumpelstiltskin do poder.

 

Hamm e Lynch não são as únicas razões para se assistir ao filme na versão original (e fique à vontade para economizar os reais extras do ingresso em 3D - o novo formato pouco acrescenta à trama). O elenco de vozes traz de volta Mike Myers (como Shrek), Cameron Diaz (como Fiona), Eddie Muprhy (como o Burro) e Antonio Banderas (como o Gato de Botas, que deve ganhar um filme só seu em 2011). A novidade é Walt Dohrn, chefe de animação do estúdio DreamWorks, que deveria dublar Rumpelstiltskin apenas temporariamente, na pré-produção, mas que acabou se tornando indissociável do personagem.

A contribuição de uma figura em um cargo executivo e criativo joga outra luz sobre o filme. Quando Rumpelstiltskin propõe seu acordo mágico, não está tentando reavivar apenas o auge do protagonista, mas também o da própria franquia. Nunca ela foi tão engraçada (ou relevante) quanto naqueles idos de 2001, quando Shrek se propôs como uma fábula "anti-Disney". Já faz um tempo, porém, que o bobo da corte faz piada às paredes. Sua figura se esvaziou porque passou a ser produzida em massa pela própria DreamWorks (em nove anos, foram quatro filmes e um especial de TV) e reproduzida, também em massa, pelos concorrentes, que absorveram sua linguagem pop e irônica. O "mainstream" cooptou o "outsider", tal qual acontecera no reino Tão Tão Distante.

 

Sobretudo, nesse período de ascensão e queda de Shrek, as animações da Pixar mostraram que não era preciso escolher entre a moralidade infantil da antiga Disney ou a iconoclastia adolescente do ogro. Havia uma terceira via, mais madura.

 

Sem alvo claro onde mirar seu sarcasmo, Shrek para Sempre conquista as melhores piadas com uso da trilha (um dos traços da franquia) e no contraste entre a nova versão dos personagens e o que já sabemos sobre eles. É um modo de homenagear o passado inverso à proposta por Toy Story 3. Você pode até não chorar como no filme da Pixar. Mas também nem rir tanto quanto.

 

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