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Saudade de coisa ruim

Qualquer tempo passado foi melhor, disse lá no século 15 o poeta espanhol Jorge Manrique, em suas Coplas por la Muerte de Su Padre. Posto em português, o verso dá esse belo decassílabo, mas nem por isso vamos assinar embaixo. Peraí, Manrique: pode valer, se tanto, do século 15 para baixo. Estou aqui no 21 e posso lhe garantir que não é bem assim.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 02h06

Devo confessar, no entanto, que no atual panorama bate às vezes uma saudade até mesmo do que a gente achava ruim. Diante do que ultimamente nos é dado ver, a ruindade pode, aqui e ali, ficar apetecível. Permita-me citar, caro Manrique, um colega seu, o não menos grande Paul Valéry: "A nostalgia não é mais o que ela era".

Dá saudade, por exemplo, do tempo em que delação era coisa abominável, remember Joaquim Silvério dos Reis, jamais merecedora de incentivo e aplauso.

Saudade, também, da Guerra Fria. (Sim, eu estava lá, venho das antigas - depois que a dona Canô e o Niemeyer desobjetivaram, quem está na linha de fogo é a safra a que pertenço.) A lista do pior que nos poderia acontecer tinha no topo um conflito que a qualquer momento desencadearia a batalha final entre o capitalismo, no "mundo livre" (este aqui, acredite), e, por detrás da "Cortina de Ferro", cujo nome já dizia tudo, o sanguinário comunismo ateu.

Em lares católicos, pelo menos, a disputa significava um embate entre o Bem e o Mal. Rezávamos, e não só lá em casa, pela conversão da Rússia, acontecimento triunfal que, segundo se murmurava, seria um dos três segredos comunicados pela Mãe de Deus aos pastorzinhos de Fátima. (Nunca entendi por que Ela escolheu aparecer naquele lugar horroroso e não na linda Leiria, ali pertinho.)

A Cortina de Ferro, como se sabe, enferrujou; ruiu o Muro de Berlim; e a Rússia ateia converteu-se nisso que estamos vendo, com máfia e Putin. Quando contemplamos as perebas do capitalismo triunfante e o mundo assombrado, não mais pelo embate entre sistemas econômicos, mas pela sangueira dos conflitos nacionalistas, tribais, raciais ou religiosos, às vezes tudo isso junto, dá vontade de requentar a Guerra Fria. Admita: não eram bem melhores os tempos em que só se ardia no fogo do Inferno propriamente dito, jamais numa jaula do Estado Islâmico, e em que "perder a cabeça" não o era no fio de uma adaga ou cimitarra fundamentalista?

Saudade do tempo (vi de perto, como repórter) em que três potentados árabes, em vez de jogarem aviões contra edifícios, jogavam montes de fichas na roleta em Monte Carlo, entregues, por mero desfastio, à brincadeira de tentar quebrar o cassino, inventando assim o que hoje não passaria de terrorismo light. Meses antes, em 1973, a vitória na Guerra do Petróleo tinha feito transbordar os obesos cofres daqueles e de tantos outros sorridentes playboys de barbicha e keffiyeh - entre os quais o príncipe Fahd, que cinco anos depois sentaria no trono na Arábia Saudita. Não conseguiram quebrar o cassino, o que significaria quebrar o principado dos Grimaldi, mas impuseram suarento sufoco aos monegascos.

Saudade da gonorreia, disse alguém quando chegou o vírus da aids.

Saudade, agora, do tempo em que certo substantivo (leio aqui no dicionário Houaiss) remetia a "lamentação infantil; choradeira, lamúria, birra"; a "comportamento astucioso; manha, ardil, artimanha", quando não a coisas amenas como "comportamento insinuante e sedutor, especialmente do sexo feminino; ostentação da aparência física por meio de gestos, roupas etc.; gestualidade afetada, pretensiosa, exagerada; delicadeza no comportamento; meiguice, fragilidade" - pois só remotamente aquela palavra designava também algo que a maioria de nós não conhecia, uma "doença infecciosa, de origem viral, transmitida ao homem pela picada de mosquitos", a devastadora dengue.

Saudade do tempo em que não ocorreria a Graciliano Ramos ambientar na maior e mais rica cidade do País as agruras de seu Vidas Secas.

Saudade do tempo em que não sabíamos do pré-sal, mas o petróleo era nosso.

Saudade do tempo que a Petrobrás extraía matéria-prima para propileno, não propina.

Saudade de quando o Brasil era o país do futuro. Não quero assustar você, mas desconfio que o futuro chegou.

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