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Saudade da Padoca Ruim

Em tempos de isolamento, até uma padaria como aquela pode se tornar atraente

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2020 | 03h00

O que você vai fazer primeiro, quando acabar a quarentena?

A pergunta pingou numa dessas lives em que há meses tentamos compensar nossa carência de encontros presenciais. E, surpreendentemente, pôde ser ouvida com clareza naquele espaço em que, no mais das vezes, a superposição de vozes instaura um caos auditivo. 

O pessoal adorou a proposta, e, decano na roda, fui escolhido para começar. Tratei de ser rápido: findo o isolamento, se é que isso vai acontecer um dia, minha primeira providência será meter-me num cinema de verdade, desses que não admitem pausa para escapulidas ao banheiro ou à geladeira. 

Será, de preferência, no Belas Artes ou no Espaço Augusta, minhas salas favoritas; jamais, jamais! – questão de princípio – em cinema de shopping. Depois de tanto tempo longe da telona, eu que vejo pelo menos um filme por semana, vou garimpar, é claro, o que de melhor se oferecer, mas, na falta disso, excepcionalmente aceitarei o apenas mais ou menos. E por se tratar de circunstância extraordinária, com multidões movidas pelo mesmo jejum cinematográfico, encararia sem protesto a vizinhança de comedores de pipoca. E depois da sessão? A decidir, informei – e passei a bola adiante.

Éramos nove na roda, e registrou-se esperável insistência em determinado tipo de programa, como dias de sossego, dessa vez não compulsório, no litoral ou na montanha. Ou esticadas mais ambiciosas a Buenos Aires, Canoa Quebrada, Machu Picchu. Tudo, no final das contas, um tanto convencional, mais ainda que a minha gana de cinema. 

O elemento-surpresa só compareceu na fala do último a se pronunciar. Um dos melhores amigos que tenho, cujo nome peço licença para não abrir em respeito à farpada discrição que caracteriza o camarada; vamos chamá-lo de Milk, já que o leite bovino é um de seus alimentos prediletos. Seja dito que se trata de um artista da fotografia, para além do impecável profissional da imprensa que foi por muitos anos; e, ainda, até literalmente, uma das cabeças mais brilhantes da nossa geração. Um tanto excêntrico, convenhamos, pautado que é, por exemplo, por uma rotina alimentar na qual o almoço jamais ocorre antes das 7 de noite. Muitas vezes dividimos mesa de refeições, cada um em seu fuso horário estomacal, ele almoçando e eu jantando. Dele falaremos mais adiante, depois de deixar registrado o seu primeiro projeto pós-quarentena: tão logo possa sair à rua, o Milk, sem qualquer escala, tomará o caminho da padoca.

Havendo em nossa live moradores em outras praças, foi necessário esclarecer que padoca, em linguajar paulistano, vem a ser padaria. Um tipo de estabelecimento que o carioca Milk, há décadas paulistanizado, conhece como raros nativos. Poderia até nos dar, com o pé nas costas, uma Teoria Geral da Padoca. 

Pois bem: autoridade no assunto, nosso amigo escolheu, para sua primeira investida padocal pós-pandêmica, não alguma casa estrelada pelos experts, mas aquela que, para ser fiel à realidade, carimbei como Padoca Ruim, denominação que a lei do menor esforço reduziu às iniciais PR. O próprio Milk, inicialmente revoltado, acabou se conformando com o rótulo, depreciativo porém exato. Por motivos óbvios, ou seja, pela ruindade, não é lá que ocorrem os encontros semanais do Café de Quinta, grupo de que fazem parte também o Dias, o Angelo e o Maia. Por acachapantes 4 votos a 1, elegeu-se sítio mais charmoso para a nossa charla das quintas-feiras, suspensa desde o início do presente pesadelo. 

Nem por isso desistiu o Milk da Padoca Ruim, na qual, embora morador em bairro distante, em tempos normais batia ponto todos os dias. Tem ali sua mesa cativa, no fundo da sala, e quando sucede encontrá-la ocupada, fica indócil, recusando-se a sentar-se em qualquer outra, até que a tal volte a vagar. Instalado, nem precisa fazer pedido, pois o pessoal da casa, do chapeiro ao caixa, conhece suas preferências e manias, aí incluídas frequentes incursões à pia para bochechar. Pode ser visto ali a tomar seu lanche, ritual que se cumpre ao custo de alarmantes quantidades de guardanapos. Passa tanto tempo na PR, que o jornal do dia é pouco para sua fome de leitura, razão pela qual traz na mochila (que não dispensa uma pochete, sua famosa “hérnia”) a edição anterior, ou até da antevéspera.

Deve ser, nosso Milk, o único frequentador da casa que não liga para a ruindade de uma padaria na qual o forte nunca foi o pão, que mesmo ele considera assim-assim, embora bem assado. É o único, também, que não reclama do estrépito de um liquidificador a estraçalhar a conversação nas mesas, nem da minuciosa sem-graceza do ambiente, ou da mediocridade exaltada da sopa a que alguns incautos se arriscam, no começo da noite. Não há, em suma, qualquer atrativo na Padoca Ruim – a não ser, sejamos justos, aquele camarada aboletado no fundo da sala, com seu boné, sua simpatia e seu papo bom, o que está longe de ser pouco.

Pensando bem, no fim da pandemia, mas não antes do cinema, vou dar uma passada na PR para ver o Milk requentando o jornal da véspera.

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