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Satyros e Koltès, um encontro explosivo

Montagem de Roberto Zucco pelo grupo é tragédia grega revisitada

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2010 | 00h00

Aos 19 anos ele esfaqueou a mãe e estrangulou o pai, escondendo os corpos numa banheira cheia para retardar o trabalho da polícia. Fugiu, foi capturado, julgado e mandado para o manicômio judiciário com uma pena de dez anos. Passou cinco anos nele, aproveitando para estudar ciências políticas. Conseguiu escapar, viajou para a França de trem, estuprou e matou duas adolescentes, um médico e dois policiais que o perseguiam. Seguiram-se sequestros e assassinatos na França, Itália e Suíça. Finalmente preso em sua terra natal, Mestre, perto de Veneza, ainda tentou escapar sem sucesso pelo teto da prisão. Dois meses depois, em maio de 1988, matou-se em sua cela. Esta foi a trágica vida breve do italiano Roberto Succo (1962-1988), que o francês Bernard- Marie Koltès (1948-1989) contou no ano da própria morte em sua peça Roberto Zucco, encenada postumamente pelo alemão Peter Stein, em Berlim, em 1990.

A mesma peça de Koltès é apresentada agora numa nova montagem do grupo Satyros sob direção de Rodolfo García Vázquez. O mínimo que se pode dizer dela é que se trata de uma experiência quase tão forte - o quase fica por conta da representação - como a trajetória de Zucco rumo ao abismo. Isso explica a opção de Vázquez por uma montagem circular, que ocupa os quatro cantos da sala dos Satyros, fazendo o público acompanhar esse percurso mítico em arquibancadas móveis. Ele participa literalmente da cena, não como espectador, mas testemunha dos crimes desse serial killer, morto aos 26 anos. É uma maneira de tornar simbólica a corresponsabilidade civil por crimes hediondos de um anti-herói insolente que violou a lei dos homens e dos deuses, como nas tragédias gregas. Não sem razão, a cada movimento da arquibancada corresponde um movimento pendular de Zucco entre hybris e sophrosyne, ou seja, entre a insana desmedida do renegado e a busca da virtude libertadora da razão.

Melancolia e violência são duas palavras que definem a peça de Koltès, filho dileto da classe média francesa cuja vida de rebelde começa num registro pasoliniano - ele ganhou projeção aos 22 anos numa montagem de Medeia dirigida pelo transgressivo Jorge Lavelli, em 1970. Como Pasolini, era homossexual e morreu aos 41 anos de forma igualmente trágica, sentindo-se um serial killer que espalhou entre seus parceiros o vírus da aids, então encarada como uma peste. Deixou 12 peças que tratam de um sentimento comum aos desajustados, o do exílio dentro da sociedade em que vivem. Isso explica o fascínio que um proscrito como Zucco exerceu sobre Koltès. O mesmo incômodo provocado pelos marginais de Pasolini era o que pretendia causar o dramaturgo: ambos falaram de um mundo em transformação, um mundo de excesso, desregrado, de Zuccos impetuosos que matam o pai e a mãe pelas chaves do carro.

Barbárie. Koltès evita o tom moralizante e tenta entender como Zucco extrapolou os limites. O diretor García Vázquez reforça o paradoxo de um estudante de linguística - é assim que se define Zucco na peça - ser um assassino também das palavras, alguém empenhado em destruir a linguagem de seus pares para impor o reino da barbárie, do terror, matando o pai como Édipo, desafiando com arrogância aquilina o poder patriarcal do Estado. O paradoxo maior, porém, é a linguagem poética que usa Koltès para dizer tais coisas, reforçada pela expressiva entonação de Robson Catalunha, um jovem ator de 25 anos que contracena com outra grande promessa do teatro, a atriz Maria Casadevall, de 23 anos, no papel de uma burguesa que Zucco conhece num parque (em backprojection, boa solução cênica) e que se recusa a dar a chave do carro para o bandido, provocando a morte do filho. São nomes para não esquecer, assim como da atriz Cléo de Páris.

Impressiona o cuidado de uma produção com 20 atores ter sido montada sem patrocínio oficial e o esforço de bons atores trabalhando no contrafluxo do comercial teatro "sala de visita" que se faz hoje em São Paulo. Da escolha do tema musical por Ivam Cabral (Passio, de Arvo Päart) aos figurinos de Lori Ann Vargas e cenário de Marcelo Maffei, o Roberto Zucco de García Vázquez não é um espetáculo. É, como se disse, uma experiência de impacto, que tira o público de sua estabilidade e, por que não dizer, de sua passividade.

ROBERTO ZUCCO

Espaço dos Satyros 1. Praça Roosevelt, 214, tel. 3258-6345.

6ª e sáb., 21h30; dom., 18h30.

Preço: R$ 30.

Em cartaz até dezembro.

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