Bob Sousa/Divulgação
Bob Sousa/Divulgação

Satyros caminham para a abstração

Em estreia nacional no Festival de Curitiba, grupo troca a habitual exuberância verbal por espetáculo sem diálogos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA - Eles criaram um teatro calcado no grotesco. E no real. Em sua extensa trajetória, os Satyros sempre se mantiveram atentos àquilo que os circundava. Levaram à cena as figuras marginais da Praça Roosevelt. Criaram um mundo muito peculiar mirando o que tinham diante da porta do seu Teatro.

Em O Último Stand Up - espetáculo que fez sua estreia nacional anteontem no Festival de Curitiba -, tudo parecia indicar que o grupo se mantinha na mesma trilha. A sinopse da montagem fala em sem-teto que vivem no Viaduto do Chá. Ivam Cabral, quando discorre sobre a dramaturgia pela qual é responsável, relata situações que observou no centro de São Paulo, famílias que ocupavam prédios abandonados.

Ainda assim, a apresentação na capital paranaense revelou-se muito, muito distante do teatro verborrágico e exuberante que a companhia mostrou nos últimos anos.

Embora experimental, os Satyros sempre se apoiaram na palavra. Aqui, aboliram-se os diálogos. Instituiu-se apenas um fiapo de narrativa. Sem muitas pistas para que o espectador possa fazer uma leitura linear daquilo que vê, a encenação beira a abstração. Tanta diferença no tom desta montagem pode ser explicada, em parte, pela direção de Fabio Mazzoni.

É a primeira vez que o encenador trabalha com o grupo. O resultado é um espetáculo pautado pelo seu uso particular da iluminação. Um lugar onde tudo se passa na penumbra. "Tenho interesse por esse trabalho com luz e sombra, por essa questão do crepúsculo. Isso transforma os personagens", diz Mazzoni, que já exibia estética semelhante em suas criações anteriores, Hagoromo e Procurando Schubert.

Monocórdio e soturno, O Último Stand Up flerta com a dança. O coreógrafo Sandro Borelli encarregou-se da direção de movimentos. Compôs um desfile de figuras agônicas, mostrou seres que se procuram com desespero e se rejeitam com violência.

Mesmo que pareça distante da linguagem cunhada pelos Satyros, a peça guarda parentesco com o grupo. "Existe um universo próximo, por exemplo, daquele que trabalhamos em Cosmogonia", diz Ivam Cabral. Na montagem de 2005, o roteiro servia-se de Teogonia, o épico de Hesíodo. Agora, a Grécia volta ao foco.

Amparado no poema de Marguerite Yourcenar, Pátroclo ou o Destino, Cabral imaginou uma situação em que Aquiles, Pátroclo e Pentesiléia são transportados ao futuro. Ainda que não tenha data de estreia prevista em São Paulo, é na capital paulista que os personagens enfrentam chuvas torrenciais. A guerra, que aparece no mito grego e na lírica de Yourcenar, ganha novo contorno. Não se trata mais de Tróia ou da 1.ª Guerra Mundial. Mas das batalhas difusas do cotidiano das grandes cidades.

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