Satyros abrem espaço cultural na Praça Roosevelt

Praça Roosevelt, 214. Nesse endereço, que fica no mesmo quarteirão dos teatros Studio 184 e Cultura Artística, um novo espaço cultural terá suas portas abertas, a partir de sexta-feira. Ocupando uma área de 300 metros quadrados, com um pequeno teatro com capacidade para 100 pessoas, de palco e platéias móveis, e um café-concerto que funcionará de dia e de noite, o Espaço dos Satyros está sendo criado pela companhia de mesmo nome, que pretende oferecer mais um local de revitalização do centro da cidade, com iniciativas que irão do teatro aos saraus, passando pelos concertos, shows e exposições, cursos de teatro, debates e oficinas. A inauguração será marcada pela estréia da 29ª peça do grupo, Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, baseada em textos do espanhol Ramón Del Valle-Inclán. A direção é de Rodolfo Garcia Vázquez (Sades ou Noites com Professores Imorais, De Profundis, Maldoror e A Dança da Morte). Fundada em 1989 em Curitiba, a Companhia de Teatro Os Satyros vem reinterpretando na prática o papel do artista no início do novo século. "Nunca dependemos de apoios governamentais", esclarece Vázquez, recém-chegado de Berlim, onde é diretor-artístico da instituição cultural Interkunst, que congrega eventos com representantes de vários continentes. "Seria função do Estado viabilizar a montagem de projetos arrojados, mas como no Brasil não há uma política clara e consistente nesse sentido, resolvemos buscar nossa sobrevivência artística", destaca Vázquez.Por isso, no itinerário da premiada companhia, que já se apresentou em mais de 15 países, nos principais festivais de teatro do mundo, há um "esquema comercial viável de peças", assim como a promoção regular de oficinas de interpretação teatral e eventos para empresas, como cursos e workshops. Em 1991, os satyros deram seu primeiro passo no sentido de administrar uma sede de teatro fora de Curitiba, assumindo a direção-artística do teatro Bela Vista, em São Paulo, onde apresentaram Sade ou Noites com os Professores Imorais e estrearam a peça de Chekhov A Proposta. De espírito empreendedor, o grupo organizou a 1ª Mostra de Arte Paranaense em São Paulo, que contou com a participação de 50 artistas e apoio do Teatro Guaíra. Dois anos depois, foram literalmente mais longe, cruzando o Atlântico para sediar um espaço cultural em Lisboa. A sede portuguesa se manteve até janeiro do ano passado, com peças e cursos, até que a idéia de reassumir a administração de um espaço cultural na capital paulistana voltou a ganhar força. Aos 38 anos, Garcia Vázquez é um diretor de teatro com um currículo de formação no mínimo curioso: estudou Administração de Empresas na Faculdade Getúlio Vargas e Sociologia na USP. Chegou a trabalhar como gerente de marketing. Com o ator Ivam Cabral, divide a parceria artística. Em Curitiba, o diretor administrativo Dimi Cabral organiza a agenda de espetáculos, viagens e eventos pelo Brasil e em países europeus. Flat - Além da sala de espetáculos com palco e platéia removíveis, o Espaço dos Satyros vai abrigar a administração da companhia no primeiro andar do Edifício Parador - as entradas são separadas, para os apartamentos e para o teatro. Abandonado há anos, conta-se que o Parador foi o primeiro prédio no Brasil a oferecer um esquema de flat, há cerca de 20 anos. Embora na época não tenha dado certo, o que ocasionou seu fechamento e, mais tarde, a invasão, o prédio foi recentemente reformado e seus apartamentos deverão ser reocupados. Logo à entrada, será instalado o café, com mesinhas, jornais e revistas para o usuário, e esquema de vendas de CDs alternativos. No espaço do meio, um pequeno foyer está sendo preparado para receber o público. A sala de espetáculos conta com isolante acústico e terá 80 refletores de mil watts - vários modelos - além de equipamento de som moderno. O espaço servirá para receber as oficinas livres de interpretação teatral, nos mesmos moldes desenvolvidos pelo grupo em Curitiba e na sede lisboeta. "Não visamos criar apenas artistas, mas também apreciadores das artes", destaca Vázquez. As inscrições serão abertas em janeiro de 2001. Baseados nas técnicas do russo Stanislavski, os dois primeiros módulos têm seis meses de duração e o terceiro e último, um ano. Serão 20 participantes por turma. Cifras - Os Satyros arrendaram o espaço por cinco anos. A um custo mensal de R$ 2 mil, que compreende o aluguel do térreo e primeiro andar, soma-se um investimento da ordem de R$ 50 mil, aplicados na reforma do espaço. "Com 50 lugares (devido à colocação de mesas a capacidade para este espetáculo caiu pela metade) e ingressos vendidos a R$ 20, sabemos que não vamos recuperar esse dinheiro nunca", avalia Cabral, porém, sem nenhum choramingo. "O que queremos mesmo é oferecer um espaço de qualidade para São Paulo e um ponto de encontro e contato entre os artistas daqui e de fora." Nos dez anos de produção do grupo, a relação entre palco e platéia sempre se deu de forma interativa. Um dos objetivos dos Satyros é tirar o espectador de sua freqüente passividade. "A intenção é que o público saia amando ou odiando, mas jamais indiferente", ressalta o diretor Rodolfo Vázquez. A radicalização de algumas propostas não evitou críticas e alguns narizes torcidos. Em Maldoror, baseado nos poemas do Conde de Lautréamont, o público era transportado em um ônibus para um local ermo e desconhecido, sob uma espécie de tortura emocional. Na peça de estréia da companhia, Sades ou Noites com os Professores Imorais, a ousadia da proposta incomodou, sobretudo por abordar questões de cunho religioso e sexual. Em determinado momento da peça, uma atriz urinava de verdade sobre um ator. Os atores atribuem a polêmica e o mal-estar da peça ao maior conservadorismo da época, que não poupou o grupo nem no Festival de Edimburgo, de onde "quase fomos expulsos", conta Cabral. Em Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte, que se compõe de uma peça principal e duas curtas, estas incluindo as técnicas do teatro de marionetes e de sombras, as reações da platéia serão estimuladas de outra forma, mais nos moldes de De Profundis (93), em que os atores e a platéia invertiam suas posições. Só que em Retábulo, o público vai dividir o espaço da representação com os atores. A ação transcorre em um cabaré, com mesinhas de bar, nas quais os espectadores serão servidos com vinho pelos personagens da peça e ficam cara a cara com os intérpretes. Uma espécie suave de figuração, por assim dizer. Personagens - A peça é baseada em textos teatrais, romances, poemas e contos do escritor espanhol Ramón Del Valle-Inclán. Os personagens principais são três: Dom Igi, dono de taberna, assassino e de caráter mesquinho; sua amante, Pepona, uma prostituta velha, mas que espera um dia obter satisfação sexual; e o jovem Andaluz, filho da mulher assassinada por Dom Igi, que vai ao encontro do velho homem em busca de vingança. O diferencial da narrativa está em que o dono da taberna contrata artistas para mostrarem seus números (sombras e marionetes). Por isso, um elenco grande em cena: dez atores. O diretor explica que esse trabalho apóia-se em um conceito estético do próprio Valle-Inclán. Instado a enxergar de fato o estado de degradação de sua Espanha dos anos 20, ele patenteou a expressão "Esperpento", que significa feio, bizarro. "Esse conceito parte do expressionismo", explica Vázquez. "Ele acreditava que a realidade era tão absurda que só poderia ser enxergada de fato através de lentes deformadoras", completa. Retábulo objetiva materializar o "Esperpento" de Valle-Inclán, deformando os personagens, seja avolumando-os ou diminuindo-os, seja exacerbando suas manias e trejeitos, ou ainda, invertendo os papéis dos personagens por gênero. Disso resulta que a prostituta Pepona tem voz e corpo de homem porque é interpretada por Ivam Cabral. A peça é pontilhada por um trilha do Brasil do final dos anos 50: a fossa deliciosa de Maysa, Cauby, Ângela Maria e Aracy de Almeida. Ingredientes - A peça intitula-se uma tragicomédia, em que os ingredientes são não apenas o humor grotesco, mas um suspense crescente em torno da amoralidade de cada personagem. Os temas discutidos estão no próprio título: avareza, luxúria e morte. Ou seja, um deles morrerá. Mas o público não sabe quem será vítima e assassino até os momentos finais do espetáculo. Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte - Tragicomédia. Texto e direção Rodolfo García Vázquez. Duração: 1h30. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 20,00. Espaço dos Satyros. Praça Roosevelt, 214, tel. 258-6345.

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