Sátiras, luta e conflitos nas trovas de Luiz Gama

No ano de 1982, Orígenes Lessa num original livrinho, publicado pela Casa Ruy Barbosa, aborda duas figuras da cultura brasileira - Inácio da Catingueira e Luiz Gama - dois poetas negros contra o racismo dos mestiços. Cada um deles procurou lidar, à sua maneira, com a sua condição, entrando em combate ativo e acirrado, utilizando os meios de que dispunham, para enfrentar o preconceito e a discriminação. Fosse a palavra certeira, da disputa em cantoria, no caso do primeiro, exaltado por Graciliano Ramos em seus Viventes das Alagoas, fosse a ironia ferina, no caso do segundo a troça bem dirigida, impressa nos versos do gênero burlesco, e com o apelo das trovas populares.Assim, nos transmite Orígenes o que disse Coelho Neto, ao prefaciar a terceira edição das Primeiras Trovas Burlescas (Martins Fontes, 326 págs., R$ 27,50): "Luiz Gama é dos raros que, neste risonho país onde só o homem é triste, riem francamente. Ele zomba do poder, das instituições, dos farsantes da fidalguia e da militança", e "até o imperador (Pedro II) entra na dança".Mas sabemos que uma coisa é o poeta, o "Orfeu de carapinha", como ele se autodenominava, e outra são os lances doloridos de sua vida, os muitos episódios e as ´mitologias´ que envolvem sua vida pessoal. Vendido pelo seu pai, um aristocrata branco, num ato difícil de explicar, tal o seu apego anterior ao menino (dívida de jogo? Vingança?), e comprometido com a busca permanente de sua mãe, a bela e evocada rebelde negra malê Luísa Mahin, pagã, deportada para a África, segundo se diz, e que ele jamais pôde encontrar. O poeta a descreve, conforme Sud Mennucci em termos de tal intensidade que estamos a ver a personagem: "Minha mãe era de baixa estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa".Sobre esse assunto, em depoimento oral, nos diz o historiador baiano Cid Teixeira que a mãe do poeta, a liberta Luísa Mahin é uma espécie de ficção (e qual a relembrança que não o é?), na medida em que não existem documentos concretos sobre ela.Também, ao longo de seu difícil caminho, Luiz Gama teria trocado não apenas o nome de família mas o próprio. Da Bahia a São Paulo, houve um longo caminho, repelido aí até como escravo, pelo fato de ser baiano, conforme carta que Luiz Gama endereçou a Lúcio Mendonça (São Paulo, 25/7/1880).Viria depois o autodidatismo, a militância em defesa dos escravos, a participação abolicionista, enfim uma biografia tão tragicamente atraente que faria esquecer um pouco a obra desse poeta singular, os componentes expressivos de sua obra.Há em sua criação e no exercício da sátira a força daquilo que se pode chamar de resistência, alicerçada no cultivo do ressentimento, senão raiva mantida pelo poeta e manifesta, desde logo, em suas Primeiras Trovas Burlescas: "Que mundo? Que mundo é este?/ Do fundo seco dest´alma/ Eu vejo... que fria calma. Dos humanos na fereza!"Matéria não lhe falta para esse rancor que o toca a partir de dentro, do vivido, à diferença do humanismo retórico de outros poetas românticos, para alimentar a densidade dramática, muitas vezes transformada em sátira. A traficância de seres humanos, a hipocrisia e a infâmia são o seu alvo, envergonhando-se muito dos que renegam suas origens africanas (as vítimas) e que proclamam a superioridade de sangue dos brancos, dos criminosos e dos traficantes, negreiros e escravocratas. É nesse tom que ele finaliza um poema que denomina Pacotilha: "E se eu que pretecio/ D´Angola oriundo/ Alegre, jucundo/ Nos meus vou cortando;/ É que não tolero/ Falsários parentes,/ Ferrarem-me os dentes/ Por brancos passando".Foi muito difundida e ficou como uma espécie de marca do poeta a famosa Bodarrada que, segundo Orígenes Lessa, lhe garante cadeira cativa na história da sátira no Brasil e eu acrescentaria, em nossa literatura. Não seria pois fora de propósito aqui reavivá-la: "Se negro sou ou sou bode/ Pouco importa. O que isso pode?/ Bodes há de toda casta. Pois a espécie é muito vasta.../Aqui nesta boa terra/ marram todos... tudo berra..."Mas têm lugar nessas suas trovas outros registros de expressão poética. Escreveu Gama um belo poema, dialogando com as Endechas a uma bárbara escrava com as quais Luís de Camões inaugura o canto de amor à mulher negra, pretidão de amor, e em que "a neve lhe jura/ que trocara a cor". Propositalmente, dá-lhe o título Cativa, impondo a presença da mulher negra na condição de musa, em nosso espaço literário. Assim, também o retrato ideal de sua mãe e desta vez dialogando com Junqueira Freire: "Era mui bela e formosa/ Era a mais linda pretinha/ da adusta Líbia rainha..."Exclusão - No entanto, é preciso dizer que o lugar desse poeta na literatura brasileira nem sempre é garantido, há matizes muito reveladores quanto à extensão e valor de sua inclusão, ou até de sua exclusão. Um trabalho extensivo sobre o assunto, inclusive compulsando as diferentes edições da mesma obra, nos daria parâmetros bem interessantes. Há os que o omitem ou apenas o consideram um poeta menor do terceiro romantismo.Sud Mennucci, que escreveu o livro O Precursor do Abolicionismo no Brasil - Luiz Gama (São Paulo, Ed. Nacional, 1938), ocupou na Academia Paulista de Letras a cadeira de número 15, que tinha sido do poeta, dedicando-se, por isso, ao estudo de sua obra. E é ele quem nos diz, para exaltar o seu antecessor que ele tinha sido comparado por Sílvio Romero a Terêncio, Spartaco e que Alberto Torres aproxima sua energia da de George Washington.Mas Araripe Jr., por exemplo (Obra Crítica, Rio, MEC/Casa Ruy Barbosa, 1966, tomo 4) vê em Gama sobretudo uma natureza de combate e agressão. No Dicionário de Literatura Portuguesa Galega e Brasileira (Rio, CBP, 1969) fonte de consulta sempre tão imprescindível, ele não tem suficiente prestígio para constituir um verbete, mas aparece em itens como: escravos, humor, sátira e ainda mais à sátira ligada à monarquia e à campanha abolicionista.Ronald de Carvalho em sua Pequena História da Literatura Brasileira (Rio, Briguiet, 1937) o coloca entre os poetas menores e o chama "o endiabrado mestiço da bodarrada". Massaud Moisés (História da Literatura Brasileira,São Paulo, Cultrix, 1984) transcreve trechos de Coelho Neto que, ao contrário daquele citado por Orígenes, desmerecem a qualidade da obra do poeta, porém em outras passagens da obra valoriza a atuação abolicionista. Já Nelson Werneck Sodré (História da Literatura Brasileira, Rio, Cultrix, 1964) o arrola entre os poetas menores do nosso romantismo (ed. 1964, pág. 317). Alfredo Bosi destaca o seu aspecto de orador libertário e o cita como predecessor de Fagundes Varela e de Castro Alves em sua História Concisa da Literatura Brasileira (São Paulo, Cultrix, 1964) e em várias passagens da Dialética da Colonização (Companhia das Letras) considera, com razão, a ação política e transformadora, o protestador veemente.Stegagno Picchio (História da Literatura Brasileira, Rio, Nova Aguilar, 1997) nos fala de Gama num plano literário mediano, destacando-o sobretudo como o fundador das "efêmeras, mas saborosas folhinhas, como o Diabo Coxo, O Cabrião", título este retirado do folhetim de Eugene Sue e inaugurando uma imprensa humorística urbana. Jerusa Pires Ferreira é professora do programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP e autora de Fausto no Horizonte

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