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Sátira e complacência

Na noite de 2011, o monólogo de Obama esquartejou a reputação do bilionário

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2017 | 02h00

O presidente Bush foi ovacionado em Washington no fim de semana. Não o George W. que mora no Texas, mas o ator Will Ferrell, que fazia a mais cômica imitação do republicano na década passada, no programa Saturday Night Live. Quando os aplausos para sua entrada no palco diminuíram, Bush/Ferrell disparou: “E agora, o que vocês acham de mim?” O homem descrito por um eminente historiador como o pior presidente da história do país está desfrutando de um certo revisionismo provocado por vocês sabem quem. Fico feliz, continuou Will Ferrell, em saber que agora sou apenas “o segundo pior.”

O candidato a primeirão foi objeto de piadas em dois eventos coalhados de estrelas no sábado à noite em Washington. Na crônica de tradições quebradas, o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, que acontece há 96 anos, foi esnobado pelo novo morador da dita casa. Diante da dúvida sobre a viabilidade do jantar, a comediante Samantha Bee convocou um “Não Jantar da Associação de Correspondentes” e lotou um teatro na capital. O jantar dos correspondentes foi em frente sem o protagonista habitual e se tornou uma noite de afagos mútuos para as combalidas hordas que tentam cobrir o Executivo mais caótico da memória recente.

Aqui, uma anedota importante. Um documentário do Frontline, uma série da rede PBS, apresentou o argumento de que a semente da candidatura do empresário nova-iorquino foi plantada exatamente no jantar da associação de correspondentes em 2011. Reza a tradição que o presidente em exercício dá uma de comediante e faz piadas sobre seu governo, política e cultura popular. E Barack Obama deu o troco em sarcasmo ao homem que havia inflamado o movimento racista birther, insinuando que o primeiro presidente negro não tinha nascido no Havaí e sim no Quênia.

Naquela noite de 2011, o monólogo de Obama esquartejou a reputação do bilionário anfitrião do show Aprendiz e a serviu em pedaços para a plateia às gargalhadas. As câmeras capturaram o rosto crispado do homem que nem uma pessoa presente acreditava capaz de se eleger cinco anos depois. 

A tese shakespeariana de Barack Obama ter motivado seu sucessor a desmontar seu legado me ocorreu de novo há dias. Stephen Colbert, que herdou o show de David Letterman, está batendo o rival Jimmy Fallon há três meses. A sátira política implacável de Colbert teria se tornado mais atraente para a audiência desde novembro. Fallon é mais apolítico e, francamente, menos engraçado. No monólogo de segunda-feira passada, Colbert agradeceu ao presidente: “Obrigada pelo serviço,” disse o comediante, numa referência a serviço militar. E concluiu: “E agora eu me sinto sujo”. Colbert, um ex-coroinha e católico praticante, não poderia admitir que se beneficia desta presidência sem algum senso de culpa.

Há um debate nos EUA sobre a complacência política e o papel da sátira. Acadêmicos argumentam que programas de comédia jornalística, como o do aposentado Jon Stewart e o que impulsionou a carreira de Colbert, estimulam um cinismo generalizado em relação à política. Há quem acuse os satiristas de fim da noite de alienarem exatamente o segmento da população que virou a eleição de novembro. 

O presente político desafia um gênero que primeiro apareceu na Grécia antiga. Um dos melhores satiristas vivos da língua inglesa, o britânico Tony Hendra, tem seu termômetro para medir a eficácia do gênero. Ele foi co-criador do lendário Spitting Image, série cômica dos anos 1980 que usava marionetes grotescas, as mais famosas figurando Margaret Thatcher e seus ministros. Um dia, um membro do gabinete Thatcher pediu de presente a marionete medonha que o representava para exibir em casa. “Foi quando soubemos que o programa tinha fracassado,” disse Hendra.

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