Sartre é tema de artigo de Adolfo Casais Monteiro

Sartre é tema de artigo de Adolfo Casais Monteiro

O encontro entre marxismo e existencialismo e o debate sobre uma produção ficcional popular estão no texto publicado no Suplemento Literário de 1960

Adolfo Casais Monteiro, de O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2010 | 18h40

 

Não será tão cedo que se desvanecerão os muitos equívocos por via dos quais, por exemplo, têm sido perguntado a Sartre coisas como estas: por que não se suicidou aos 30 anos, se os existencialistas andam sujos, se dançavam nas caves etc. E o que o existencialismo vem a ser, para muita gente que faz a sua cultura pelas secções de anedotas da imprensa, mais uma extravagância de franceses decadentes. Pior, todavia, do que tais ingenuidades, é a má fé dos que, não tendo o direito de ignorar que o existencialismo é uma corrente fundamental do pensamento moderno, também pretendem reduzi-lo a graciosas anedotas, coisa sem dúvida mais fácil que discuti-lo.

 

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Uma senhora que o acaso sentou a meu lado, na conferência sobre o sistema colonialista que Sartre fez no instituto Superior de Estudos Brasileiros, ensinou-me que Sartre, dantes, era reacionário, mas agora não; ante o meu tímido protesto, acrescentou que ele abjurara o existencialismo. Perante tamanha certeza, e com receio de ser novamente desmentido, não lhe citei uma frase que se acha no prefácio do último livro do filósofo, e que diz assim: "Considero o marxismo a inultrapassável filosofia do nosso tempo (...) e tenho a ideologia da existência e o seu método "compreensivo" como uma enclave do próprio marxismo, que ao mesmo tempo o engendra e o recusa" (Critique de la raison dialectique, pág. 9/10).

 

Por que cito a minha interlocutora e esta frase? Porque, aquela e esta, nos elucidam desde logo sobre muita coisa, inclusive as reações contraditórias das mais diversas gentes. É certo que muitas pessoas só conhecem de Sartre a obra literária e supõem o existencialismo mais uma escola literária; a ideia de Sartre ser um filósofo pode não ter para elas um sentido muito claro. Outros, muito diversamente, sabem que Sartre foi (como toda a gente) largamente insultado por todos os stalinistas, e é, portanto, um reacionário... Estas duas noções sem sentido, mas muito correntes, não preparam evidentemente, as suas vítimas para se acharem diante dum homem que lhes fala em termos que não excluem o existencialismo nem o marxismo.

 

Que isto se pode entender, mostra-o a breve mas excelente síntese de José Guilherme Merquior, no Suplemento do "Jornal do Brasil", de 27 de agosto, quando diz: "Uma humanidade condenada à liberdade se responsabiliza pela História; era lógico assim que o pensamento de Sartre desembocasse no marxismo, e mais ainda, que diante de um marxismo cristalizado ele erguesse uma filosofia de reconcretização marxista. É o ponto em que as análises de L'être et le Néant evoluem para uma assimilação filosófica do concreto histórico. Enquanto Lukács berra contra o irracionalismo burguês dos existencialistas, Sartre proclama o existencialismo como legítimo herdeiro de Marx. E o afluente do marxismo ameaça com muita justiça quebrar o gelo de uma suposta ortodoxia marxista, que não passa de esclerose ideológica montada em a prioris formalísticos: a Critique de la raison dialectique reúne erudição sociológica num contexto de universalidade concreta. O último livro de Sartre, dezessete anos após sua grande obra, vivifica como quase nenhum outro a filosofia atual, e harmoniza maravilhosamente os triunfos do existencialismo com o autentico espírito do marxismo".

 

Creio que não se podia exprimir melhor, em breve síntese, a presente "situação" de Sartre. Acontece porém que para se entender isto não só é necessário ler Sartre, como saber o que sejam as duas correntes, ou as duas "filosofias" que ele teria reconciliado. Seja como for, é indispensável sabê-lo para se compreender, por exemplo, o interesse com que Sartre, conforme narrei no meu artigo anterior, abordou o problema duma literatura "popular" brasileira. Na verdade, é preciso não esquecer (Como procurei já sugerir no artigo referido) que o "engagement" é uma atitude marxista, embora os que pretendem donos de Marx tenham dito sempre o contrário. É este equivoco que atrapalha sobretudo aqueles para quem "marxismo" e "comunismo" são sinônimos. Acontece precisamente que os fatos fizeram dele quase... antônimos. E, para entender o pensamento de Marx, e a sua importância fundamental para o nosso tempo, é indispensável fazer a desvinculação total das duas palavras - para que depois se possa estabelecer o nexo que realmente as liga, mas se entenderá somente depois dessa limpeza prévia do espírito.

 

Mas fiquemos - para que não tenha de o remeter para terceiro artigo - com o problema do Recife: a literatura "popular". Por que interessa a Sartre investigá-lo? Porque, evidentemente, a sua consciência duma crise na literatura francesa, e o predomínio de preocupações, digamos, sociológicas, na fase atual do seu pensamento, lhe impõe a busca duma solução para o problema que não foi de modo algum resolvido pelo realismo socialista, o qual não passa duma expressão do dogmatismo stalinista aplicado à estética; ao mesmo tempo, não vê, na literatura "burguesa" (por exemplo, no "novo romance" dos Robbe-Grillet, Butor etc.) maneira de se restabelecer a possibilidade dum romance universal; isto é, do povo para o povo: não o romance expressão duma classe, e "feito" por ela, mas o do "povo" e feito por...

 

Ora eis o obstáculo, parece-me; feito pelo povo". Mas quer isso dizer alguma coisa? Quem é o povo? Mas a possibilidade de se dar resposta à pergunta de Sartre implicava precisamente que houvesse "o" povo e uma literatura para ele. Implicava uma realidade que também no Brasil não existe, e por isso mesmo ninguém lhe deu resposta satisfatória. Se lha tivessem dado teria sido uma mentira. É que, de fato, a renovação do romance que por exemplo a literatura de "oposição". Era a burguesia condenando as "maravilhas" da suposta civilização americana. Não era talvez, e isso é da maior importância, uma revolta do individualismo, no sentido "liberal" da palavra. Era, sem dúvida, uma reivindicação dos valores humanos contra a escravização ao tecnicismo. Mas não era uma literatura socialista, porque, se a palavra pode vir a ter sentido, será o que ganhe numa sociedade socialista, coisa que é ainda do domínio da utopia.

 

O principal obstáculo a que se entenda o problema (não falemos em soluções!) é a dificuldade em se admitir que um Joyce ou um Guimarães Rosa possam ser autores "populares". Quer dizer, a dificuldade é que sempre se pensa em termos de "descer ao povo", por influência de muitos e muitos anos de permanente confusão de noções. Ora, pode ser que esta literatura "do povo" seja uma literatura... difícil. Pode ser que seja... Guimarães Rosa, precisamente. Hipótese que timidamente apontei no Recife, encostado à parede pela inquisição de Sartre.

 

Há realmente uma questão de palavras a elucidar, antes de mais nada. Precisamos de eliminar as associações de ideias expressas, por exemplo, no sentido que damos a "popularizar", que vem a ser o de "tornar mais acessível". Ora, não se trata de popularizar a literatura, mas de saber o que seria a literatura dum povo inteiro, quer dizer, aceite, reconhecida por um povo inteiro, e não apenas expressão duma classe, e só por ela consumida. Ora, nós estamos na fase em que o escritor burguês escreve sobre o povo - mas ele não é o povo. E em que, também, o povo não o lê, porque não sabe ainda ler; de onde só podemos concluir que é cedo para se pôr realmente o problema da literatura em termos socialistas.

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