Sarney mostra o Amapá em seu novo livro

Depois de deixar a Presidência, em 1990, o maranhense José Sarney escolheu o Amapá para retomar a carreira política. Agora, o senador vale-se do Estado para alimentar sua vida literária. Seu novo livro, Saraminda, é um romance que se passa na fronteira do Estado com a Guiana Francesa. É o segundo de Sarney, autor de O Dono do Mar e do livro de poesias Os Marimbondos de Fogo, entre outros."O cenário de Saraminda é a moldura; tenho sempre dito que nunca deixei que a política participasse de minha atividade literária, mas devo reconhecer que, se não tivesse ido para o Amapá, não escreveria esse romance", respondeu por escrito da Europa, durante viagem de férias ("um auto-presente dos meus 70 anos"), a perguntas enviadas pela reportagem.A personagem que dá nome à obra é uma prostituta, com os bicos do seio da cor do ouro - ouro que atrai os garimpeiros para a região do Contestado do Amapá, área incorporada ao Brasil em 1900. Em torno dela, gravitam brasileiros e crioulos franceses. "O romance não é propriamente histórico", explica. "Os personagens são fictícios, embora a moldura da história crie os limites do tempo."Sarney diz ter feito uma pesquisa de cinco anos para escrever Saraminda. O político que, candidato, na campanha de 1990, foi acusado de ter escolhido o Amapá pela viabilidade eleitoral (no novo Estado seriam eleitos três senadores, enquanto no Maranhão apenas um), diz ser atualmente um "conhecedor da região". "Li todos os livros sobre a luta do Contestado, entrevistei muitos velhos que recolheram da tradição oral as lutas, a vida e os costumes dos brasileiros e crioulos da região." Sarney afirma ainda que tomou vários cadernos de notas e entrevistas, fotos e conversas gravadas. "Escrevi uma história do Amapá (A Terra onde o Brasil Começa) e me considero um conhecedor da região."Segundo o senador, os verdadeiros personagens de seu livro são a condição e os sentimentos humanos. "O ouro, que passa a ser uma entidade, tem vontades, vive e determina a vida das pessoas - não o ouro riqueza, mas o ouro ambição e ´cobição´ o ouro que gera o poder, o poder que gera o ouro."Sarney escreve à noite, mas toma notas durante o dia. "Acostumei-me a uma disciplina de, todas as noites, ir para minha biblioteca ler e escrever até o começo da madrugada; levanto cedo e repito um pouco esse gosto." Tenta não misturar política e literatura, mas admite que Saraminda o acompanhou mesmo em reuniões políticas. Ele não crê poder ser julgado com isenção pelos críticos, devido a sua vida política. Diz só que "a crítica tem sido generosa". Mas ressalva: "Alguns espíritos preconceituosos e estreitos, sob o pretexto de fazer crítica, agrediram-me pessoalmente de modo deselegante."Mas Sarney acha-se melhor político ou escritor? "Sinceramente, não sei, é difícil julgar-se. Agora, se me perguntarem de que gosto mais, da política ou da literatura, direi que da literatura. Para ser político, eu não lutei como o fiz para manter-me escritor. Política é destino, literatura, vocação."Saraminda, de José Sarney. Editora Siciliano (tel. 0--11/3649-4660), 256 págs., R$ 25.

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