'Saravá', um pot-pourri de casaca

Obra de Clarice Assad, encomendada pela Osesp em homenagem a Vinicius de Moraes, é mera colagem de canções

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h17

"Uma peça composta de citações em que cada uma se apresenta com urgência e logo deixa espaço para outra", escreve Clarice Assad sobre seu Saravá, a mais recente encomenda da Osesp, que estreou anteontem na Sala São Paulo e será reapresentada hoje. Em oito minutos, ela cita dez canções com letras de Vinicius de Moraes. Ora, empilhar melodias precariamente costuradas é um engodo. Saravá é pot-pourri de casaca, um punhado de saravás sinfonicamente desengonçados. A peça do macedônio Damir Imeri tocada após Saravá é tão ruim quanto a de Assad. Lida com temas folclóricos, mas de modo igualmente precário (o jeitão é o do clichê romântico europeu).

A julgar pela futura execução de um Concerto para Violino pela Osesp e a encomenda feita por John Neschling e o Teatro Municipal de uma ópera sobre futebol a Francis Hime, precisamos de sal grosso, e não de saravás. O autor de Passaredo está se entronizando como "o grande compositor brasileiro contemporâneo". O populismo guia nossos gurus sinfônicos. Será que ninguém conhece as obras de compositores jovens brasileiros radicados na Europa e nos EUA? Na recém-concluída Bienal de Música Hoje de Curitiba, dois grupos europeus - o Platypus de Viena e o Cross Art Ensemble de Stuttgart - vieram mostrar para nós (!!??!?), brasileiros, o fascinante, consistente e inovador caleidoscópio da nossa criação musical de fato contemporânea.

Ainda bem que, após a homenagem ao trompetista Gilberto Siqueira por seus 40 anos de Osesp, duas obras russas sepultaram a música frouxa e descartável do início. O concerto n.º 1 para piano e cordas foi composto por Shostakovich em 1933, no auge da ousadia e com seu humor ainda não turvado pela censura do regime. O trompete solista ficou a cargo do homenageado. Se Marin Alsop e a Osesp deram-se bem no concerto, o mesmo não se pode dizer de Simon Trpceski. As notas estavam lá, não houve desentrosamento. Mas faltou adesão a um pianismo mais viril: o toque do macedônio é contido demais para a escrita de Shostakovich.

A execução da Sinfonia nº 2 de Prokofiev, a mais radical, de 1924, quando sorvia os ares vanguardistas de Paris, provavelmente terá poucos trechos a serem aproveitados para a gravação de CD para a Naxos. Houve defasagens incômodas entre os metais e as cordas nesta música feita de ferro e aço, como ele gostava de dizer. Calcada na sonata opus 111 de Beethoven, tem dois movimentos: um Allegro em forma sonata de um construtivismo infernal e sonoridades brutais; e um tema com seis variações que termina placidamente. Mas barulheira não precisa esconder deficiências. É preciso lapidar a execução.

No último dia 27, Klaus Heymann, o capo da Naxos, disse em entrevista ao Wall Street Journal que as orquestras precisam mesmo pagar por suas gravações para se promover. E deu o exemplo da Osesp: "A Orquestra Sinfônica de São Paulo está subsidiando o ciclo Prokofiev de Marin Alsop. Artistas que querem fazer turnês e ter presença online precisam investir na imagem".

Bem, ninguém pode queixar-se de que a Osesp não está investindo pesado em sua imagem internacional. No entanto, gravar Prokofiev parece mais interessante à imagem de Alsop do que à Osesp, que, por natureza, deveria pensar em gravar a música sinfônica brasileira. Mas, a julgar pelo conceito de música brasileira orquestral contemporânea que pratica, correríamos o risco de ver em CD uma integral sinfônica de Francis Hime. Sendo assim, Saravá, Prokofiev!

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