Ricardo Peixoto/Divulgação
Ricardo Peixoto/Divulgação

Sarapalha, o sucesso que calou o Piollin

Grupo da Paraíba supera o êxito de Vau da Sarapalha e mostra Retábulo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

A fama, às vezes, intimida mais, muito mais do que o fracasso. E, no caso do grupo Piollin, o problema foi exatamente esse: o sucesso. Tão logo entrou em cartaz, em 1992, o espetáculo Vau da Sarapalha catapultou o grupo da Paraíba ao estrelato. Não houve jornal à época que não noticiasse o fenômeno. Vinha do Nordeste um teatro novo, vivaz, capaz de recriar com talento incomum a prosa de Guimarães Rosa.

Desenhava-se um êxito perigoso. À história não faltam exemplos de compositores de uma só canção, autores de um só livro, pintores de um só quadro. Parecia ser esse o destino incontornável do Piollin: tornar-se a companhia de uma única peça. Mas a estreia de Retábulo deve (ou ao menos pretende) mudar isso. No início deste mês, a trupe mostrou em Fortaleza os primeiros resultados da nova montagem. Até janeiro, excursiona por capitais nordestinas e prepara-se para, em 25/1, abrir temporada em sua sede, em João Pessoa.

Assim como já fazia em Vau da Sarapalha, o diretor Luiz Carlos Vasconcelos recorre a uma obra literária para criar Retábulo. O alvo agora, porém, desvia-se da popular ficção rosiana para recair no intrincado universo de Osman Lins. Incensado nos meios acadêmicos, o pernambucano permanece quase desconhecido do grande público, que não raro se afugenta quando topa com sua prosa experimental. Mas seria exatamente esse arrojo a isca a seduzir o coletivo paraibano.

Em um de seus mais radicais romances, Avalovara, Lins concebe a narrativa a partir de um palíndromo latino (Sator ArepoTenet Opera Rotas). A frase - que pode ser lida de trás para frente ou de frente para trás - dita a estrutura responsável por amarrar o enredo. "Queria trazer esse rigor formal da sua literatura para o teatro", comenta Vasconcelos. "Vi aí a possibilidade de construir uma cena prismática." Não por acaso, o cenário da montagem resume-se a quadrados riscados no chão, que transformam o palco em um imenso tabuleiro.

Forma e conteúdo. Se o traçado do romance, concebido como peça geométrica, era o que o diretor tencionava mostrar, a história convocada para preencher a forma vem de outra das obras de Osman Lins: Nove Novena. Mais especificamente de um dos mais belos contos do volume: Retábulo de Santa Joana Carolina. Seu mote é a memória que o autor guarda da avó paterna. A fábula erigida, contudo, dá à heroína a dimensão de mito.

Em sua adaptação, Vasconcelos fez algumas mudanças e o título do espetáculo - que é apenas Retábulo - já oferece a chave para compreender a transposição dramatúrgica. "É linda a homenagem que Osman faz à avó, mas não tratamos Joana como santa. Contamos a história de uma mulher simples, sem sacralizá-la."

À primeira vista, o enredo de Retábulo delineia-se como um prato cheio para uma história edificante e comovente. Em sua composição, porém, o Piollin recorre a todas as desconstruções caras à encenação contemporânea: o traço pós-dramático, a descontinuidade. Aspectos que, o diretor garante, já estão apontados na própria obra de Osman Lins. "Se, nas peças que escreveu, ele optou por um modelo tradicional. Em Nove Novena, ele dialoga com o que há de mais contemporâneo no teatro."

Quase 20 anos separam Vau da Sarapalha do novo espetáculo da companhia. Ainda assim, há elos perceptíveis entre as duas criações, como se fossem etapas de uma mesma pesquisa a se desdobrar.

Inúmeros aspectos aproximam Guimarães Rosa de Osman Lins. Ambos miraram um Brasil arcaico, mas conseguiriam escapar do regionalismo pela inventividade no uso da língua. "A diferença é que se Guimarães fica no micro, nas palavras, Osman vai para o macro", aponta Vasconcelos. E é precisamente isso que o Piollin faz agora: vai mexer nas estruturas. Não se pode dizer que o resultado será melhor, mas sabe-se que, certamente, o grupo se lança em território mais arriscado.

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