Ernesto Rodrigues/Estadão
Ernesto Rodrigues/Estadão

Saramago não gostava de sossego

Mesmo convalescendo de uma doença, o escritor, que completaria 90 anos nesta sexta, reunia forças para criticar o que achava errado

Ubiratan Brasil, de O Estado de S.Paulo,

16 de novembro de 2012 | 19h00

 "Sou como um elefante numa loja de louças: não sigo pauta, nem roteiros." O escritor português José Saramago, de fato, não gostava muito do sossego. Mesmo convalescendo de uma doença que acabou levando-o à morte, em 2010, ele reunia as exíguas forças para disparar críticas contra o que considerava injusto no mundo. O canal era um blog, no qual tanto acariciava amigos (Jorge Amado, Carlos Fuentes, Chico Buarque) como cutucava políticos - o ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, por exemplo, foi premiado com o seguinte post: "Na terra da Máfia e da Camorra, que importância poderá ter o fato provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?".

 

Saramago completaria 90 anos nesta sexta-feira, 16 de novembro. Morreu em junho de 2010, deixando uma obra consagrada e a imagem de homem austero na defesa dos movimentos democráticos. Para Harold Bloom, um dos mais importantes críticos literários da atualidade, Saramago era, ao lado do americano Philip Roth, o mais talentoso escritor vivo até sua morte. Não se trata de um elogio fácil. O português que ganhou o Nobel de literatura em 1998 exibia uma versatilidade que, segundo Bloom, poderia aproximá-lo de Shakespeare, trafegando com inteligência do drama à comédia.

 

Conhecido pelo seu ateísmo e iberismo, Saramago publicou o primeiro romance em 1947, Terra do Pecado. Seguiu escrevendo poesia, crônicas, teatro até descobrir o caminho literário que o tornaria mundialmente conhecido e admirado - enquanto escrevia Levantado do Chão, em 1979, Saramago disse ter encontrado seu caminho. "Quando ia na página 24 ou 25, e talvez seja esta uma das coisas mais bonitas que me aconteceram desde que estou a escrever, sem o ter pensado, quase sem me dar conta, começo a escrever assim: interligando o discurso direto e o indireto, saltando por cima de todas as regras sintáticas ou sobre muitas delas", relembrava.

 

A ruptura lhe permitiu escrever obras como divertido O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) e principalmente seu melhor romance, O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991): obra corajosa, polêmica contra o cristianismo em particular mas contra as religiões em geral. Harold Bloom comenta que poucos livros como esse conseguiram tratar Cristo e o catolicismo sem se sujeitar a um respeito obrigatório.

Autointitulado comunista hormonal, Saramago não foi, porém, autor de uma obra abertamente política - preferia a alegoria, quando atingia momentos sublimes como em Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Antes de tudo, era um cidadão comprometido com uma forma de ver e analisar o mundo.

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