Saramago dá show literário no Sesc

Aos 78 anos, José Saramago parece se sentir mais à vontade do que nunca diante de grandes platéias, como a da última quarta à noite no Sesc Pompéia, quando falou para 800 pessoas que se reuniram para ouvi-lo falar sobre seu novo livro, A Caverna. Foi a segunda visita do escritor a São Paulo depois do Nobel (1998), mas antes disso sua notoriedade sempre foi grande por aqui, onde há mais de uma década é o autor português mais conhecido dos brasileiros. Saramago e Raul Cortez subiram ao palco com meia hora de atraso e foram aplaudidos de pé. O ator leu, durante 20 minutos, trecho de A Caverna selecionado pelo autor. Cortez saiu-se bem na leitura do texto de longos parágrafos e pontuação sinuosa na qual os diálogos são introduzidos sem aspas ou travessão. Saramago estava bem-humorado e falou por quase uma hora, como sempre, de improviso. Discorreu sobre as características de Cipriano Algor, personagem do romance, um oleiro na iminência de se aposentar porque suas peças de barro não têm mais mercado no Centro, mistura de shopping center e cidade, o pesadelo orwelliano no qual o escritor acredita que a humanidade está enterrada. A Caverna está intimamente ligado à intransigente defesa do humanismo de Saramago e acabou se constituindo na terceira ponta de uma trilogia involuntária - as outras duas obras são Ensaio sobre a Cegueira e Todos os Nomes. Nas três, o autor buscou mostrar sua indignação contra o que denomina de aviltamento do indivíduo e sua diluição na sociedade de mercado. Animal em extinção A fala de Saramago é pontuada pela digressão e se assemelha à sua narrativa. "O homem é uma espécie em extinção e é o único animal dotado de crueldade. Fico a imaginar como seria este planeta sem os homens, com as árvores crescendo, os animais se reproduzindo", disse. Esse é um sentimento que angustia o escritor e que o leva a um irremediável ceticismo: "Sou um cético porque nunca na humanidade se destriu tanto". Porém, ele mesmo afirma que em A Caverna o fim é menos sombrio, comparado aos desfechos de seus livros anteriores. Saramago não respondeu a perguntas dessa vez. Embora esteja cumprindo uma maratona fatigante, que já o levou à África e à América Latina e a várias capitais brasileiras, parece bem disposto. Embora viva isoladamente em uma ilha do arquipélago das Canárias, ele se sente compelido cada vez mais a participar e denunciar injustiças. "Hoje, eu tenho prestígio, afinal sou um Nobel. Tenho uma mulher que eu amo e uma casa. Poderia me sentir feliz, mas como, cercado por tantos problemas?". Saiu como chegou, aplaudidíssimo por centenas de pessoas que depois se enfileiraram para que o autor lhes autografasse o livro.

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