Saramago aprova adaptação de seu "Evangelho"

O José Saramago que subiu sorridente ao palco, com uma flor à mão, ao fim da estréia para convidados de O Evangelho segundo Jesus Cristo, no teatro do Sesc Vila Mariana, confirmava em gestos as palavras colhidas na breve entrevista concedida ao Estado, momentos antes da estréia da peça, sábado à noite. O prêmio Nobel de Literatura de 98 esteve no Brasil no fim de semana, especialmente para conhecer a adaptação para o teatro de sua obra literária mais polêmica. Assistiu ao ensaio geral na sexta-feira e, no sábado, antes de a peça começar, participou da concentração com o elenco. O espetáculo tem a direção de José Possi Neto."Eu tinha razões para pensar que sairia um bom trabalho, mesmo sabendo das dificuldades de se adaptar as cerca de 500 páginas do livro para um espetáculo de duas horas", disse o escritor. "Quando eu soube, há poucos dias, que uma das personagens principais do livro, José, não estava na adaptação, estranhei. Mas ao ver a peça ontem (sexta-feira), compreendi que foi uma opção. Maria Adelaide Amaral manteve a presença contínua do personagem durante toda a peça, criando uma espécie de ausência da presença. Eu gostei", afirmou.Saramago foi apresentado a Maria Adelaide no próprio sábado. "Achei-a não só uma pessoa extraordinária e encantadora, como grande profissional." Ressaltou, ainda, que "a idéia muito clara que ela tinha sobre a adaptação foi bem expressa no conjunto do espetáculo". Em Evangelho segundo Jesus Cristo, os mitos bíblicos são humanizados e Jesus passa a ser um questionador de seu próprio destino. Formam o elenco, entre outros, Paulo Goulart, Walderez de Barros, Celso Frateschi, Eriberto Leão, Julia Catelli e, estreando no teatro, Maria Fernanda Cândido.Óperas - Há duas adaptações de obras de Saramago convertidas para ópera na década de 90: o romance Memorial do Convento e a peça teatral In Nomine Dei. Saramago gostou das duas adaptações, feitas pelo compositor italiano e amigo do escritor, Azio Corghi. "Mas não sou otimista em relação a esse assunto; sou mais um resignado. Porque sabemos que muitos casos de adaptações para o teatro e o cinema - sobretudo para o cinema - de obras literárias são verdadeiros desastres." "Ensaio sobre a Cegueira teve mais de 20 propostas de produtoras dos Estados Unidos que recusei. Uma produtora canadense, que me inspirou bastante confiança, deve fazer o filme." O escritor disse que cada adaptação é um caso específico. Citou O Nome da Rosa (Umberto Eco) como exemplo de grande desastre e Morte em Veneza (Thomas Mann), com direção de Luchino Visconti, como modelo de adaptação vitoriosa, ainda que não totalmente fiel ao livro. "A condição básica é que a adaptação conserve o espírito do livro, que não queira dizer outra coisa, uma coisa diferente do original; essa é a condição básica."

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