Sarah Jessica ''Eu amo essa mulher!''

É a frase que se ouve em todas as sessões de Sex and the City 2 - com direito a ''tricô'' da plateia sobre o figurino

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2010 | 00h00

   

 

 

SEX AND THE CITY 2

Direção: Michael Patrick King. Gênero: Comédia (EUA/2010, 146 minutos).  

 

 

 

 

 

 

 

Entediada dentro de um vestido azul platinado, Sarah Jessica Parker comprime os olhos cheios de rímel, em uma expressão que só pode significar que vem aí algum pensamento do dia. "Você casou comigo sabendo que eu sou mais Coco Chanel do que Coq au Vin", diz ela para o marido, Big, que havia perguntado se tinha alguma coisa para jantar. Big pisca o olho para sua garota, sorrindo comum lado só da boca. Um charme.

A vida de Sarah Jessica não é fácil. Ela é angustiada, feliz, angustiada de novo, risonha, inteligente, triste, astuta, absorta, indignada, feliz, felicíssima, furiosa, kkkk!, ela ri do próprio infortúnio, dá a volta por cima, nossa!, quantos estados de humor! Sarah nem sabe o que fazer com a pessoa tão complexa que é. Resolveu escrever um livro.

No livro, ela tem três amigas que filosofam diuturnamente sobre homens e roupas. Elas falam e Sarah Jessica não ouve. Ou só ouve quando ela própria fala. "Big e eu somos adultos, sem filhos, temos o luxo de poder escolher como vamos viver'', ela diz, com profundidade no olhar, depois de contar às amigas que ele pediu dois dias por semana longe dela.

Samantha, a mais velha, faz o papel de conquistadora serial de homens mais jovens, e é considerada engraçadíssima. Loura, vistosa e simpática, ela parece decoradora da Casa Cor. Miranda é uma ruiva grandalhona e desajeitada, que deixa para as outras tudo o que importa ao grupo (homens e roupas). Charlote encarna uma patricinha lesada.

As especialidades de Sarah Jessica (o nome de seu alter ego é Carry Bradshaw) sempre foram os problemas que acometem mulheres solteiras (especialmente ela mesma) de Nova York. "Será que o Big me merece? Será que Manolo Blahnik me merece? Será que Manhattan me merece?"

São dúvidas que a acompanham desde o primeiro capítulo de Sex and The City, a série, de 1998. Em Sex and The City 2, o filme, sua voz em off avisa o que está por vir. "O tempo é uma coisa estranha. Uma década pode se passar, sem que nenhuma novidade aconteça."

Fadas. No filme, ela se apronta para um casamento gay. A "noiva" se chama Stanford, é careca, dentuça e lembra um pouco o personagem Pedro Bó, da falecida Escolinha do Professor Raimundo. Sarah Jessica vai visitá-lo na tenda-camarim e comenta que colocaram em sua lembrancinha do casamento o sobrenome de Big e não o dela. Resolve espantar o problema, mudando de assunto. "Você está linda toda de branco, Stan", diz ela a Pedro Bó, com trilha de conto de fadas.

Nas cadeiras do cinema, um grupo de gays não consegue se decidir. "Eu sou a Samantha!", diz um, na fileira de trás. "Imagina, eu sou a Miranda", acha outro, ao lado do primeiro. "No escritório, as pessoas dizem que tenho tudo a ver com a Carry. Eu amo essa mulher!", declara um terceiro. "As bicha se acha", diz um exemplar mais sofrido, três cadeiras para a direita. Liza Minnelli comanda a cerimônia do casamento, canta e dança. Todo mundo a acompanha, os gays à frente, batendo palma. "É uma lei da física, toda vez em que há um evento gay, Liza Minnelli se manifesta em nós", diz Miranda. Todos riem na plateia. "Que maravilha!", repetem, nos momentos em que Liza parece patética. Uma loura se aproxima e diz a Sarah que leu seus livros e é sua fã. Sarah Jessica sorri inclinando a cabeça, como se estivesse envergonhada. Olha pra Big. Ele faz cara de ursão protetor.

Depois do casamento gay, a história precisa caminhar. É então que um xeque árabe se encanta por Samantha e a convida para passar uma semana em Abu Dhabi. Mas ela diz que só vai se as três amigas forem. Todas têm marido, filhos, trabalho, mas e daí? Vai todo mundo. A essa altura, já se passou uma hora de filme e você pensa. "Elas ainda vão viajar?" Vão. Bate um sono.

Lá pelas tantas, Sarah Jessica topa com um antigo affair (em Abu Dhabi!)e o beija na boca. Rola crise de consciência. Ela liga pra Big e conta. Ele fica mal. Ela fica mal. Chatice. Mas ainda tem filme pela frente. Logo depois, Sarah lê na New Yorker (!) uma crítica negativa ao seu livro. Levanta, joga a revista e sai correndo com um modelinho esvoaçante. As outras três se olham com expressões que podem significar uma porção de coisas. Desde "tadinha!" até "enlouqueceu de vez".

Roupinhas. As "bicha" do cinema fazem o inventário do figurino das quatro, em voz alta. "Adoorooo", diz uma, quando Samantha aparece com roupa multicolorida que a deixa tão sexy quanto o Garibaldo, do seriado vintage Vila Sésamo. Em dado momento, ela é presa pela polícia mulçumana de Abu Dhabi por beijar um homem na areia da praia. Ah, essa Samantha!

O argumento do filme é tão crível quanto o de um episódio do desenho animado Josie e As Gatinhas. Samantha volta da praia com a boca borrada de batom e...zzzzzzzzzz o repórter zzzzzzzz um zzzzzzz que soninho zzzzzzzzzzzzzzz.

O mais instigante é que, apesar de o filme se prolongar por quase duas horas e meia - e aparentemente esgotar todas as questões que encasquetam as mulheres de Manhattan - Sarah Jessica Parker ainda pode aprontar um Sex and The City 3.

AS OUTRAS TRÊS...

Sem vergonha

A cama de Samantha está sempre balançando, e ela gritando. É a preferida das "bicha"

Arte e Vida

De tanto Miranda fazer a confidente das amigas, Cynthia Nixon acabou assumindo-se lésbica

Equivocada

Charlote poderia ser a mais bonita, mas, para tranquilidade de Sarah Jessica, é a mais burrinha

 

 

 

 

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