'Saraband', a derradeira dança

Talvez seja apenas uma fantasia, mas é comum ver a última obra de um artista com olhos especiais, imaginando nela encontrar uma espécie de súmula que expressa, de forma cabal, sua concepção de mundo, a forma como vê os homens e as coisas.

SÉRGIO TELLES, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2012 | 03h06

Ingmar Bergman é um gigante da sétima arte, um dos criadores da própria linguagem cinematográfica. Suas histórias mergulham fundo nos grandes dilemas existenciais e a maneira como constrói seus personagens mostra intimidade com a dinâmica inconsciente do psiquismo.

É difícil ver Saraband, seu último filme, sem a expectativa acima mencionada e a primeira impressão é a de que Bergman teria deixado um legado sombrio e desesperançado. Saraband (feito para a televisão em 2003 e tido como o epílogo da série Cenas de um Casamento, de 1973) parece apontar para a inviabilidade das relações humanas, todas elas regidas pelo ódio e fadadas a uma inescapável "destrutividade".

O filme começa e termina com Marianne (Liv Ullman), cercada de fotos, falando de sua vida diretamente para o espectador. Está sozinha, não tem contato com as duas filhas (uma é doente mental e vive num hospital psiquiátrico, a outra mora na Austrália); não viu por mais de trinta anos o ex-marido Johan (Erland Josephson), a quem um dia fora visitar, obedecendo a um inesperado impulso. Na distante casa dele, testemunha o violento relacionamento de Johan com o fracassado filho músico Henrik, que perdera pouco antes sua querida mulher Anna e que se apega à própria filha Karin, talentosa celista, num vínculo incestuoso que a impede de seguir vida independente. Ao voltar desta temporada no inferno, Marianne visita a filha catatônica e sente que, pela primeira vez, pode aproximar-se afetivamente dela.

Dimensões. Uma grande obra de arte não se entrega de imediato. Ela fica marinando na mente e aos poucos vai liberando conteúdos fundamentais que antes não havíamos atentado, fazendo com que a impressão inicial se modifique e sua real dimensão finalmente apareça. Assim ocorre com Saraband. É somente num segundo momento que percebemos a grandeza de Marianne, que, com sua atitude compassiva, supera a crueldade, o desespero e niilismo que procuram dominar a cena. Ela não se deixa abater pela amargura, pela descrença. Com o amor e uma tácita aceitação da vida, age como um cimento a ligar Johan e Henrik, duros e envenenados tijolos. Lugar semelhante ocupa a figura de Anna, que é por todos lembrada com carinho.

Impactados com a estridência da agressividade, não tínhamos notado o silencioso trabalho de Marianne, que junto com Anna, resgata o testamento de Bergman, devolvendo-lhe a dimensão humanística, a esperança e a confiança na vida.

Estaria com isso afirmando que a arte deve ter uma moral positiva? Essa questão dá pano pras mangas e diz respeito às relações entre ética e estética. De qualquer forma, penso que o artista sabe na própria carne que o ato de criar, que lhe é tão intrínseco, é um gesto amoroso decorrente de Eros e se opõe frontalmente à destruição imposta por Tânatos.

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