Analu Prestes/Divulgação
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Sara Antunes se arrisca em voo solo

Vinda do prestigiado grupo XIX, atriz se destaca em 'Sonhos para Vestir'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2011 | 00h00

CURITIBA - Para quem está na plateia, é difícil reconhecer em que lugar Sara Antunes está. Não sabemos nunca que papel ela representa. Será ela mesma? Ou uma personagem?

Em Sonhos para Vestir, peça que apresentou no Festival de Curitiba, a atriz fala constantemente com o público que a assiste. Discorre sobre hipóteses de vida plena, tão aquém daquilo que nos serve o cotidiano. Pergunta-se para onde vão esses sonhos não realizados. As palavras que não chegamos a dizer. Os planos abandonados no meio do caminho.

Fora do palco, Sara trilhou um percurso semelhante a este da ficção. Em 2008, decidiu abandonar o grupo XIX de Teatro, ao qual estava ligada desde sua fundação, para ir atrás de alguma outra coisa. Algo um tanto indefinido, mas que aplacasse aquilo que ela nomeia como crise existencial. "Tinha planos radiantes, que não combinavam com a vida que estava levando. Queria experimentar tantas coisas, mas não podia. Daí percebi que era muito jovem para me sentir presa."

Depois que decidiu trocar São Paulo pelo Rio, tudo aconteceu depressa demais para Sara. "Em um ano, tinha a vida que eu queria", ela diz.

Seu primeiro trabalho completamente independente, Sonhos para Vestir tem direção de Vera Holtz e vai representar o Brasil na Quadrienal de Praga. Neste ano, ela também faz sua estreia no cinema: deve aparecer em três longas. Agora, prepara para firmar-se como dramaturga. Escreve um texto para a atriz Clarice Derziê, a ser encenado por Julio Adrião. E faz sua primeira incursão como diretora. Conduz Domingos Oliveira em seu novo espetáculo, um monólogo biográfico no qual o ator, dramaturgo e cineasta tece reflexões sobre os seus 74 anos.

Não é porque foi rápido que foi fácil, nos lembra Sara. Quando resolveu deixar o grupo XIX, ela tinha 26 anos. Havia acabado de perder o pai. Não tinha dinheiro nem convites. A companhia que ajudou a criar quando ainda era estudante de artes cênicas na USP vivia um de seus melhores momentos.

Reconhecido como um dos mais inventivos coletivos do novo teatro paulistano, o XIX acabara de receber um patrocínio da Petrobrás que asseguraria a continuidade do trabalho por dois anos. Mas ela só conseguia pensar que não teria a chance de se experimentar nem de levar adiante um projeto em que algo um pouco mais pessoal começava a ganhar forma.

O monólogo Negrinha foi o primeiro passo de Sara para fora do grupo. Surgiu em um contexto um tanto híbrido. Baseado no conto de Monteiro Lobato, era dirigido pelo mesmo diretor da companhia, Luiz Fernando Marques. Mas começou a garantir-lhe certa projeção individual, com viagens e temporadas ao redor do País.

Sem planos. Após a saída do XIX, não dava para planejar muita coisa. Então, Sara pegou o único dinheiro que tinha no banco, R$ 10 mil, e investiu em uma remontagem de Negrinha. Arrumou um lugar para apresentar-se no Rio. E para lá foi.

No dia da estreia, porém, nem tudo saiu como planejado. "Chovia tanto que quase ninguém apareceu. O público se resumia a cinco pessoas." Ao recordar a situação, ela diz que abaixou a cabeça antes de entrar no palco viu a vida passar em retrospecto. "Parecia um retrocesso. Me senti uma maluca por ter deixado tudo."

Ao fim da apresentação, uma das espectadoras da mirrada plateia veio falar com ela. A atriz Maitê Proença gostara tanto do que vira em cena que fez ali mesmo o convite para que ela integrasse o elenco de As Meninas, peça que iria montar em breve.

Com direção de Amir Haddad, o texto de Maitê esteve em cartaz no Rio e em São Paulo e abriu as portas para outros convites. Foi chamada por Felipe Hirsch para tomar parte na remontagem de Temporada de Gripe. Conheceu Erick Rocha, filho de Glauber Rocha, com quem filmou o longa Transeunte.

Decidida a se aventurar também como autora, concebeu o projeto de Sonhos para Vestir. E conseguiu a adesão de Vera Holtz, que assina seu segundo trabalho como diretora. Da memória e das cartas escritas pelo pai desde que era criança, erigiu a dramaturgia. "A peça fala sobre esse movimento, esse impulso de escolher." Sara mostrou, no palco de Curitiba, o resultado das escolhas que fez.

* A repórter viajou a convite da organização do festival.

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