Sapucaí versão estúdio

No Rio pré-carnavalesco é quase um esporte julgar a safra dos sambas de enredo e tentar adivinhar quem chegará ao desfile bem servido neste quesito. O CD com a trilha do Carnaval 2011 é o primeiro parâmetro, pois a gravação é feita logo depois da escolha das músicas pelas escolas.

Marcelo Hargreaves, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Alguns críticos insistem na tese de que o resultado sempre piora. Como se nos anos 70 e 80, auge do gênero na mídia, não houvesse sambas de gosto duvidoso. A safra deste ano não possui um legítimo boi com abóbora, gíria dedicada às grandes bobagens, nem uma composição que pareça ter fôlego para atravessar diversos carnavais. Mas há bons hinos.

O CD manteve a fórmula do anterior. As escolas gravaram na Cidade do Samba com seus ritmistas e coro. A mixagem abafou bastante os instrumentos de corda, ressaltando o ritmo das baterias - frenético, para sustentar a passagem de 4 mil pessoas em 85 minutos.

Duas homenagens se destacam. A Mangueira lembra os 100 anos de nascimento de Nelson Cavaquinho. O samba tem pegada tradicional, com melodia forte e letra poética, com o homenageado narrando em 1ª pessoa: "Quis o Criador me abençoar, fazer de mim um menestrel...". Com A Simplicidade de um Rei, a Beija-Flor exalta os 70 anos de Roberto Carlos. A letra conta a vida dele sem recorrer à manjada colagem de nomes de canções.

Os sambas de outras quatro escolas têm fôlego para agradar. O Salgueiro apresenta: O Rio no Cinema tem letra criativa, apoiada em melodia cadenciada e agradável. Foge ao padrão consagrado pelo hino de 1993, Peguei um Ita no Norte, último sucesso nacional do gênero.

A Vila Isabel canta sobre cabelo. Das perucas egípcias às da realeza francesa. O que embaraçou um pouco foi o ritmo acelerado demais. Com uma canção sobre genética, a Imperatriz adverte: sambar faz bem à saúde. É divertido ouvir algo como "Se alguém me decifrar, é verde e branco meu DNA". Vale lembrar que desfile não é show musical. Samba e bateria são fundamentais, mas lá na hora grandes sambas já fracassaram e composições pouco inspiradas empolgaram até turistas estrangeiros nas arquibancadas. Aí está a graça.

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