Sapatilha e preconceito

Superação sexual e luta política equilibram 'Billy Elliot', musical em que três atores se revezam como protagonista

UBIRATAN BRASIL, HARTFORD / EUA, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2013 | 02h15

Drew Minard e Mitchell Tobin são meninos esguios, que andam de forma relaxada, desengonçada até, e que adoram beisebol e futebol. Mas, ao subir ao palco para personificar Billy Elliot, cada um deles assume uma responsabilidade incomum, que se revela tanto no texto devidamente decorado como, principalmente, na precisão dos passos coreográficos.

Na verdade, são obsessivos precoces. "Eu tinha 9 anos quando fiz meu primeiro teste para Billy Elliot, o Musical e, desde então, não sosseguei enquanto não conquistei o papel", conta Mitchell, 13 anos, natural de Boca Raton, Flórida, dançarino desde os 2. "Todos os verões, eu viajava para Nova York para assistir ao espetáculo. Interpretar Billy logo se tornou um desafio, eu falava e dançava como ele, repetia suas falas, até ser selecionado para fazer a turnê."

Já Drew, diminutivo de Andrew, também tem 13 anos, mas corpo franzino de quem não passa de 9. Foi incentivado a dançar pelo irmão mais velho, que não seguiu carreira. Ele, ao contrário, tornou-se um especialista. E surpreende pela quantidade de recursos que consegue exibir ao dançar. "Meu momento favorito no espetáculo é um solo, Electricity, quando Billy revela toda sua raiva por ter dificuldade em frequentar as aulas de dança."

Um terceiro garoto, Noah Parets, completa o trio de intérpretes de Billy Elliot, que se revezam a cada apresentação. Como passam meses excursionando, a produção convocou dois tutores que auxiliam os garotos nos trabalhos que eles não fazem na escola por causa das viagens.

Em meio ao rodízio dos jovens atores está um ponto fixo, Janet Dickinson, atriz que interpreta Mrs. Wilkinson, a bocuda professora de balé que convence o pai de Billy a liberá-lo para os testes para o Royal Ballet. "Fico impressionada com esses rapazes pois, apesar de agirem de forma diferente no dia a dia, exibem o mesmo profissionalismo quando em cena", conta ela. "Basta ver a cena do balé."

Janet refere-se ao momento mágico em que o pequeno Billy dança com ele mesmo, mais velho e já consagrado no Royal Ballet - uma idêntica camiseta ajuda a identificá-los como a mesma pessoa. Graças a um cabo preso nas costas, o jovem bailarino sobrevoa o palco, executando passos graciosos, uma coreografia que exige muita precisão da dupla. "O encanto do espetáculo está na busca desse sonho", comenta Stephanie Mayorkis, diretora da divisão de Family Entertainment da T4F, empresa que patrocina a vinda de Billy Elliot.

Paralelo à história de superação do bailarino, o musical evidencia ainda a questão política. Em 1984, mais de 300 mil homens trabalhavam em minas na Grã-Bretanha, quando a primeira ministra Margaret Thatcher enfrentou os sindicatos. Na queda de braço, venceu a política, resultando em demissão em massa. O desagrado marca o início do segundo ato, com os mineiros ironizando Thatcher pelo magro Natal que ela lhes reservou.

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