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São Valentim

A garota exibia com orgulho um pequeno buquê de flores em tons de cor de rosa e lilás

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2017 | 01h00

Nessa última terça-feira, demorei para sair para trabalhar porque a louça estava acumulando na pia havia quase três dias e a situação começava a tornar-se insustentável. Mas, assim que saí, percebi que naquela manhã as ruas de Lisboa não eram as mesmas dos outros dias.

Passo diariamente em frente a uma escola na qual os alunos têm aquelas assombrosas idades que oscilam entre os 14 e os 17. Sempre passo por lá com alguma pressa, assustada com aquela quantidade de adolescentes, que gargalham, gritam e fumam cigarros de forma desajeitada, pelo simples fato de serem adolescentes.

Nessa terça-feira, o Liceu Camões estava diferente. O clima estava mais apreensivo, mas surpreendentemente mais leve. Parecia que havia menos barulho e menos fumaça. Todavia, havia ali uma tensão diferente. Parecia que eles estavam concentrados em observar uns aos outros de uma forma discreta e malsucedida.

 

Foi então que eu vi o primeiro. Era um menino bem magro, com seus 15 anos, de casaco marrom, mochila verde-musgo, acne de grau médio nas bochechas e costas curvadas (não sei se por conta de algum problema postural fruto do rápido crescimento ou se por conta do evidente constrangimento que o acompanhava naquela manhã). Na mão direita, ao fim de um braço incansavelmente esticado para baixo, até atingir praticamente a altura dos joelhos, uma rosa vermelha.

Desacelerei o passo. Comecei a olhar para os adolescentes com mais calma. Num grupo de cinco meninas que se encostavam a um muro, uma delas - que não era a mais alta, nem a mais bonita, nem a mais desenvolta - inflava o peito, exibindo orgulhosamente um pequeno buquê de flores em tons de cor de rosa e lilás.

Um pouco adiante, quase na esquina da Almirante Barroso, dois casais se beijavam, um em cada canto. Um deles era, evidentemente, o casal mais popular da escola. Ele era alto e tinha ombros largos e ela tinha a pele bronzeada bem no auge do inverno. O outro casal era deliciosamente desajeitado. Ele tinha recebido uma carta que estava apoiada em cima de uma caixa de chocolates Milka, que, por sua vez, estava apoiada sobre a mochila, que o menino amparava com o joelho com medo de cair tudo de uma vez, e ela segurava sua rosa com o braço rígido, tentando evitar que algum espinho pegasse a nuca do namorado, enquanto se beijavam confusamente.

Do outro lado da rua, duas meninas, uma loira de olhos azuis e a outra de cabelos escuros contrastando com a pele clara, também trocavam presentes. Uma ganhou um livro laranja, a outra eu não consegui enxergar. Talvez fosse um par de brincos, não sei. Ambas sorriam até os olhos ficarem apertados pelas bochechas, que o tempo nos rouba quando fazemos 27 anos.

Pela primeira vez, eu não quis atravessar a Almirante Barroso o quanto antes para fugir dos adolescentes. Eu queria era ficar ali, mesmo sem ser convidada, mesmo sem ser protagonista de história nenhuma. Queria ver que, em meio a tantos cigarros inúteis, a tanta acne ingrata e a tantos falsos risos de autoafirmação, havia amor. Amor novato, principiante, imaturo, talvez. Mas não menos importante do que qualquer outro amor.

Segui caminhando para o Saldanha, desejando que a cidade inteira estivesse tão romanticamente piegas quanto aqueles meninos, embora soubesse que, com os anos, essas manifestações vão rareando até sumirem.

Quando atravessei a praça, vi um senhor com seus 80 anos, de paletó cinza, chapéu preto e costas curvadas (não sei se por conta de algum problema postural fruto do envelhecimento ou se por conta do evidente constrangimento que o acompanhava naquela manhã). Na mão direita, ao fim de um braço incansavelmente esticado para baixo, até atingir praticamente a altura dos joelhos, uma rosa vermelha.

Um déjà-vu nunca foi tão bem-vindo. Obrigada, São Valentim.

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