São Paulo reinventa monumentos

Em março, obras de José Resende, Laura Vinci e Eduardo Coimbra intervêm no dia a dia da Pauliceia

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2012 | 03h07

O ano artístico de 2012 alcança as ruas. No dia 3 de março, dois pontos da cidade presenciarão a arte vindo ao encontro da população. A primeira intervenção será na Rua Dr. Miguel Couto, próxima do Largo do Café, no Centro de São Paulo. Nascerá ali a obra Clara-Clara, da artista Laura Vinci, montada com sete redes de náilon suspensas, cada uma com sete luminárias, ligadas 24 horas (como meteoros incandescentes pendurados), que irão substituir a iluminação da rua.

Clara-Clara é uma reedição de intervenção já realizada por Laura Vinci em Melbourne, na Austrália, em 2006. Laura esteve na 26ª Bienal de São Paulo e tem obras em Inhotim, MAM e MAC de São Paulo, Museu Nacional de Belas Artes do Rio e Pinacoteca, entre outros.

A segunda obra de arte pública será aberta no mesmo dia, mas a alguns quilômetros dali, na Praça Charles Müller, na frente do Pacaembu. É a instalação Nuvem, de Eduardo Coimbra - cinco caixas de luz quadradas (5m x 5m), fixas no chão, com laterais espelhadas, mostram imagens de uma nuvem seccionada. O transeunte caminha pelo meio das nuvens, numa espécie de "natureza artificial", criando paisagem na Pauliceia.

Essa obra de Coimbra já ficou em cartaz no Rio de Janeiro em 2008, na região da Praça XV, centro da cidade. Eduardo Coimbra participou da 29.ª Bienal de São Paulo e tem obras no Paço Imperial, no MAM do Rio e no Instituto Tomie Ohtake, entre outros.

As duas novas obras de arte pública que São Paulo ganha são fruto da continuidade do projeto Arte na Cidade, lançado em junho de 2011, que busca estimular artistas e curadores a dar sua versão do "monumento" da nossa era no espaço urbano (edificações, parques e praças). "O projeto nasceu da ideia de se repensar a arte pública", diz um dos coordenadores do projeto, Douglas de Freitas.

Uma das intervenções mais complicadas, prevista também para março, é a que o artista José Resende vai promover na Rua Borges de Figueiredo, 1.358, na Mooca, em São Paulo. Com curadoria de Nelson Brissac, a obra é a que tem o caráter mais político do lote. Resende vai usar o próprio material de uma linha desativada de trem (sucatas, trilhos, vagões e dormentes). Pretende suspender a sucata com cabos, escavadeiras e guindastes.

Como numa estratégia antibaudrillardiana, José Resende pretende questionar o desaparecimento da realidade por meio dessas ruínas desacreditadas do mundo do capital e do consumo - além de brincar com volumes monstruosos, sucatas pesadíssimas, no espaço que criará. Haverá ali um mirante para que o público possa ver o trabalho.

A primeira instalação do programa Arte na Cidade, desde 17 de setembro, é uma obra em progresso. Trata-se de Projeto para uma Pintura com temporal #6, de Thiago Rocha Pitta. O artista pintou a empena do edifício Isnard, na Avenida São João, 1.382, com uma tinta especial feita de óxido de ferro. A tinta vai enferrujando e criando uma pintura espontânea, e o processo de mudança é a própria obra, acompanhada diariamente pelas pessoas que trabalham e circulam pelo local.

Outra obra inaugurada em setembro foi a de José Spaniol, o projeto Descanso na Sala, que ficará em exibição até 2013, no Parque Burle Marx. Em meio à reserva da Mata Atlântica, Spaniol ergueu uma sala, com mesas e cadeiras, a alguns metros do lago do interior do parque. A obra de Spaniol, única que tem um caráter duplo de intervenção e monumento, poderá ficar definitivamente no parque.

No Parque D. Pedro, Paulo Penna dispôs xilogravuras gigantes em pilares e passarelas do emaranhado de viadutos da região. Mauro Sergio Neri comandou a instalação coletiva Cartograffiti, com participação de 9 artistas, na Praça Eugene Boudin, em Pinheiros. Naquela área, 21 muros, bancos e lixeiras renasceram. O trabalho ficará ali até o final deste ano. A seleção dos vencedores do projeto deixou como suplentes artistas consagrados, como Marco Giannotti e Valfrido Lima.

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