São Paulo, por Cristiano Mascaro

Disposto a desvendar o significado das coisas insignificantes, Cristiano Mascaro partiu pelas estradas de seu Estado natal. Antes, assinou um contrato com os editores do Senac "prometendo" que se encontrasse esse sentido iria registrá-lo, para mais tarde mostrar um conjunto das melhores respostas, dos inúmeros exemplos e de seus ângulos inusitados. A promessa é cumprida entre as páginas 49 e 60, as únicas fornecidas pela editora, entre as 150 fotos de São Paulo, que será lançado na segunda-feira. Mascaro conta ter percebido, no princípio da viagem, que o "insignificante" estava nas situações mais cotidianas, as mais simples do dia a dia. E, diante dessa luz, o trabalho foi se desenvolvendo e caminhando em uma linha de expressão cuidadosa que poderia, com o despreparo do profissional ou com a preguiça do olhar, cair no lugar-comum. Reprodução"chegar aos lugares da forma mais discreta e mais transparente possível, fugindo de acontecimentos"Mas a busca pela precisão obrigou-o a mudar alguns hábitos adquiridos em 32 anos de carreira. Mascaro teve de administrar a amplitude do tema, a dimensão do tempo - um ano e meio - e, a mais complicada, a troca de sua câmera cativa - uma Hasselblad - por uma Leica, 35 mm. Isso tudo para "chegar aos lugares da forma mais discreta e mais transparente possível, fugindo de acontecimentos". "Em certos momentos pensei - Ai se tivesse com a minha Hasselblad. Mas ela dá tanto trabalho para montar e poderia assustar, além de exigir mais tempo de trabalho", afirmou em uma entrevista exclusiva à Agência Estado.Clichezão - Na verdade, o que Mascaro fez não é nenhuma novidade. Outros fotógrafos já se dispuseram a registrar o cotidiano do interior do Estado e do Brasil, e o mesmo ocorre em outros países. "Pode ser até que o cotidiano esteja virando um clichezão", disse Mascaro, durante os ajustes e retoques das 60 fotos de sua exposição no Sesc Pompéia, que é aberta juntamente com o lançamento de São Paulo. Mas mesmo que o cotidiano vire uma febre, poucos terão o olhar que se admira com o tédio, com o pensamento do ser humano, personagem central de seu trabalho. E as poucas fotos onde o leitor não encontrará pessoas também merecem destaque. Como a do nascimento de um posto de gasolina. "Ele está cru, sem aquele mundo de propaganda, no meio do amanhecer, um dos cenários mais mágicos da natureza". Reprodução"Não vou fazer um livro de geografia"Segundo Mascaro, o ensaio buscou mais a qualidade do que a quantidade e, por isso, não houve entre outubro de 1998 e março de 2000 a obrigação de passar por todas a cidades do Estado: "Não vou fazer um livro de geografia".O preto e o branco predominam nas 200 páginas do livro, assim como em toda a carreira do fotógrafo, cujo exemplo mais recente é As Luzes de São Paulo, seu último livro. Segundo Mascaro, os tons de cinza dão mais trabalho quando se trata de traduzir o simples, mas quando o fazem, captam-no de uma forma pura e abstrata: "Com a menor quantidade de recursos você traz a precisão". Por isso, não precisa nem falar que Mascaro prefere ficar longe das máquinas digitais. "Quando eu achar que esgotei a minha fase um, passarei para a fase dois". O que parece, em São Paulo, é que isso era demorar. Palestra - Os interessados em conhecer o processo de criação de São Paulo poderão participar de duas palestras que o Senac, realiza no dia 22, às 10h e às 19h30, na Rua Scipião, 67, Lapa.São Paulo Editora: Senac. 200 páginas. R$ 70.

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