São Paulo: outros tempos, outra música

Há décadas famosas, pelo menos para nós mesmos. Já falei dos anos 1950, sua importância na história da música paulistana. Mas a grande, inesquecível década de minha vida, foram os anos 30 do século passado, principalmente os últimos, já entrando na guerra.

Gilberto Mendes, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Eu estudava nas arcadas da Faculdade de Direito do Largo S. Francisco. Colega de classe da Lígia Fagundes Teles, que nem pode se lembrar disso, porque eu era um ilustre desconhecido, e ela, tão jovem, já era apontada pelos colegas como renomada contista da nova geração. E que felicidade, à noite, quando podíamos assistir a uma palestra do poeta Guilherme de Almeida, refinadíssimo dândi da alta sociedade paulista, autor de deliciosas críticas de cinema neste jornal. E por que ninguém ainda não reuniu esses maravilhosos escritos num livro? Um dia, a pedido de meu cunhado Miroel Silveira, levei à casa do poeta qualquer coisa e quem me abriu a porta: ele próprio. Que emoção!

Outra curtição, esta muito intelectual, era ouvir o professor André Dreyfus, da recém-inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (coisas dos inquietos Mesquitas), relacionar literatura, artes em geral e biologia, como fazia também Aldous Huxley em seus livros Contraponto e Sem Olhos em Gaza, recém-lançados. Uma novidade, tudo aquilo. A velha, sempre culta e charmosa São Paulo, comoção de minha vida, segundo o verso famoso de Mário de Andrade.

Outros tempos, outra música! O que ouvíamos, então, nas rádios, os poderosos meios de comunicação daquela época? Hoje em dia se ouve praticamente só uma segmentação da música rock, em todas as suas modalidades. Nos anos 30 era impressionante a variedade dos tipos de música que podíamos ouvir. A música popular urbana vienense, húngara, os foxtrotes e tangos alemães, as canções napolitanas de Tito Schipa, mais, of course, a música norte-americana.

Minha muito querida amiga Heloisa Valente, notável pesquisadora de músicas populares já meio esquecidas, citou, em um seu recente trabalho, as orquestras de Dajos Bela e Marek Weber, orquestras austro-húngaras de música popular de salão. Ela achou tudo isso em livros muito doutos. Aí eu peguei o telefone e contei para ela que, nos anos 30, ouvíamos tudo isso nas rádios de São Paulo, eram orquestras muito populares. Heloisa é uma santista muito sofisticada. Quando passa muito tempo em Paris, durante suas pesquisas, e sente saudades de Santos, pega o trem à noite e desce para Nice.

Uma curtição recente minha é colocar, durante o almoço, música popular alemã dos anos 30 para musicistas alemães que vêm me entrevistar. Ficam espantadíssimos de ouvir na casa de um brasileiro as músicas que seus avós cantavam. Coloco em desfile os CDs que comprei na Alemanha com as vozes de Marika Roekk, Zarah Leander, Lílian Harvey, Martha Eggert, Jan Kiepura. Todos esses artistas você podia ouvir fartamente na Rádio Record dos anos 30, que ainda apresentava, para contrabalançar tanta música europeia, às 4 horas da tarde, o saudosíssimo programa Popeye, na voz magnífica do speaker Renato Macedo. Aí era a vez de Benny Goodman, Tommy Dorsey, Glenn Miller, Duke Ellington, Guy Lombardo, Shep Fields...

Voltando à forte presença germano-austro-húngara entre nós, ainda me lembro do enorme sucesso popular em São Paulo do filme Maskerade (que tenho o privilégio de ter, presente do pianista alemão Michael Uhde), com a suave e meiga Paula Vessely e o lendário Adolph Wohlbrück, sua elegantíssima figura, a charmosa maneira bem alemã de segurar o cigarro, o sprech gesang arranhando na garganta, autêntica voz de cabaré. Ele faria ainda na Alemanha La Ronde, de Max Ophüls, Vitor e Vitória, anos depois refeito em Hollywood por Blake Edwards, e o antológico O Estudante de Praga, na linha expressionista alemã ao lado de Nosferatu, Caligari, Mabuse...

Depois da guerra, já no cinema inglês, com o nome trocado para Anton Walbrook, participa do extraordinário Sapatinhos Vermelhos, com a bailarina Moira Shearer, na opinião de Martin Scorsese, a mais completa realização artística já feita, reunindo todas as artes. Scorsese chegou a restaurar esse filme, tamanha é sua paixão por ele. Paixão também do Coppola, que ele confessa em Trento. Um filme que também inspirou o recente Cisne Negro, com a Natalie Portman.

Tudo isso, acreditem, é tão a sempre culta e fascinante São Paulo anos 30! Na minha cabeça, pelo menos...

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