São Paulo japonesa

Livro do antropólogo Alexandre Kishimoto analisa as salas de cinema do bairro oriental da Liberdade e mostra como os filmes japoneses influenciaram os cineastas paulistanos

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2013 | 02h09

São Paulo já foi a capital japonesa do cinema. Tinha quatro salas exibindo simultaneamente filmes de Kobayashi, Kurosawa e Mizoguchi antes que a majors americanas decretassem a hegemonia do cinema de Hollywood com o toque de recolher do cinema europeu e asiático na cidade. Autores como Ozu e Sugawa tiveram influência enorme sobre realizadores paulistanos, entre eles Walter Hugo Khouri (1909- 2003) e Carlos Reichenbach (1945-2012), dois cineastas que, embora distantes no estilo, buscaram no cinema japonês suas referências formais. A história das salas e dessa cinefilia é contada no livro Cinema Japonês na Liberdade, do antropólogo social Alexandre Kishimoto, que chega às livrarias dia 5 de março.

O nikkei Kishimoto não frequentou os cinemas do bairro da Liberdade por ser muito novo quando as salas funcionavam. Quando iniciou sua pesquisa, eles já estavam em decadência ou tinham outro uso - alguns se transformaram em templos evangélicos, outros em casas de show. No entanto, descobriu por meio dessa pesquisa que as salas representavam, no pós-guerra, uma possibilidade de reencontro dos imigrantes japoneses com sua cultura. As exibições públicas de filmes japoneses durante o Estado Novo e até o fim da guerra - por ser o Japão aliado da Alemanha nazista - foram proibidas no Brasil. As cópias clandestinas e os equipamentos de projeção eram confiscados pelo governo.

A primeira tentativa de reativar a exibição dos filmes japoneses aconteceu em 1946. Respondeu por ela Kimiyasu Hirata, pioneiro de sessões ambulantes em três diferentes pontos da cidade (centro, Pinheiro e Vila Mariana). Com sessões lotadas, ele se entusiasmou, incentivando outras companhias e distribuidoras de filmes. Os japoneses e seus descendentes, discriminados e divididos durante a guerra, receberam como um bom sinal de reconciliação a volta dos filmes japoneses, testemunhando a inauguração de salas para a exibição exclusiva da produção nipônica. A pioneira foi a do cine Niterói, inaugurado em 1953.

O Niterói, cinema com mais de 1.200 lugares, exibia filmes de samurai e da Yakuza (máfia japonesa). Foi decisivo para o crescimento do comércio japonês no bairro da Liberdade, ajudando a caracterizá-lo como bairro oriental. Um ano depois seria aberto o cine Tokyo, transformado posteriormente, em 1962, no cine Nikkatsu, para exibição exclusiva da companhia cinematográfica de mesmo nome. Nele começam a ser mostradas as produções da nouvelle vague japonesa (Shohei Imamura e outros) que chamavam a atenção dos cinéfilos paulistanos. Os jornais, atentos ao fenômeno, passaram a publicar críticas desses filmes, sendo o Estado pioneiro na área, com Rubem Biáfora (1922-1996) e Alfredo Sternheim.

"O início da exibição dos filmes japoneses em São Paulo coincide com o reconhecimento internacional de Kurosawa, que conquistou o Leão de Ouro em Veneza com Rashomon, em 1951", lembra o autor. O filme foi exibido em 1952 no cine Odeon, um ano antes do aparecimento do pioneiro cine Niterói, o que deve ter animado os empresários japoneses a importar mais filmes e abrir as próprias salas. Nos anos 1950, conta Kishimoto, o cineasta Walter Hugo Khouri já era assíduo frequentador dos cinemas da Liberdade. Muito ligado a Biáfora, que depois se tornaria cineasta (O Quarto), foi ele quem recomendou aos colegas os filmes intimistas de Naruze, Ozu e Gosho - e também a críticos, a julgar pelo depoimento de Jean-Claude Bernardet.

Escritores como João Antônio (1937-1996) e Ignácio de Loyola Brandão, cronista do Caderno 2, também frequentavam as salas do bairro. Num dos últimos capítulos do livro, Kishimoto toca num ponto delicado, partindo de uma observação de João Antônio sobre o preconceito de raças nas salas da Liberdade: o conflito com os okinawanos, imigrantes que vieram de Okinawa no navio Kasato Maru (40% deles eram provenientes da ilha). Os japoneses, segundo o depoimento da cineasta e pesquisadora Olga Futemma, não gostavam de ser confundidos com eles, porque os okinawanos andavam descalços, carregavam os filhos nas costas e faziam muito barulho.

Não foi, porém, esse conflito interétnico que decidiu o destino das salas da Liberdade, mas uma lei baixada durante a ditadura militar, em 1967, e ampliada em 1975, que obrigava os cinemas a exibirem 112 dias de filmes nacionais por ano. "A importação de filme japoneses começou a ficar difícil, coincidindo com o declínio do sistema de produção dos estúdios japoneses", analisa o autor. Foi o começo do fim da cinefilia japonesa em São Paulo.

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