São Paulo inaugura Memorial da Liberdade

Incomodado com a série de notíciassobre morte e violência transmitidas pela televisão, o artistaplástico Siron Franco teve uma repentina visão: corpos seacumulavam indistintamente. "Foi antes do atentado contra oWorld Trade Center, mas foi uma imagem que teve a mesma força",comenta ele, que trabalhou freneticamente na instalaçãoIntolerância. É com esse trabalho que será aberto nestaquarta-feira, às 20 horas, o Memorial da Liberdade. O local nãopoderia ser mais apropriado: o antigo prédio do Departamento deOrdem Pública e Social (Dops), no centro da cidade, onde ficavamos presos durante o regime militar.O edifício, projetado como uma estação ferroviária por Ramos deAzevedo em 1914, foi completamente remodelado para abrigar suanova ocupação, um espaço para diversas atividades culturais.Assim, além do trabalho de Siron Franco, o Memorial da Liberdadevai apresentar também a exposição Cotidiano Vigiado -Repressão, Resistência e Liberdade nos Arquivos do Dops1924-1983, com imagens e documentos dos arquivos da políciapolítica, conservados desde 1991 no Arquivo do Estado. E, porfim, a exposição Cidadania - Declaração Universal dos Direitosdo Homem, em homenagem aos 200 anos da declaração.A cerimônia, além das presenças do governador Geraldo Alckmin edo secretário de Estado da Cultura, Marcos Mendonça, contaria como ator Paulo Autran, que faria uma leitura de Liberdade,Liberdade, texto de Millôr Fernandes que ele encenou na décadade 60 sob a direção de Flávio Rangel - um libelo contra aditadura proferido em plena ditadura. Apesar de disposto aaceitar o convite, o ator temeu ser traído pela emoção nomomento da leitura, por isso teve de recusar.Criado em 1924 em razão da crescente agitação sindical eanarquista, o Dops cumpriu um importante papel na históriapolítica do País. Diversas personalidades e lideranças políticasforam vigiadas pelo departamento, como Monteiro Lobato, AnitaMalfatti, Patrícia Galvão, Oswald de Andrade, d. Paulo EvaristoArns, Elis Regina e outros.O Dops foi extinto em 1993 por decreto e seu prédio começou aser reformado em 1999, mesmo ano de seu tombamento. Sob acoordenação do arquiteto Haron Cohen, a restauração, avaliada emR$ 10 milhões, atingiu espaços especialmente críticos do pontode vista histórico, como as celas onde os presos políticos foraminterrogados e torturados.A intenção inicial era manter uma das celas com as mesmascondições de uso de quando abrigavam os prisioneiros, mas atransformação do edifício em Delegacia do Consumidor, nos anos80, apagou vestígios da época. Além do Memorial da Liberdade, oantigo prédio do Dops vai abrigar também o Museu do Imagináriodo Povo Brasileiro, a ser criado pelo ex-diretor da Pinacoteca,Emanoel Araújo."Depois de implantado, o Museu do Imaginário será um dos maiscompletos núcleos culturais do País, com espaço para convenções,auditório, laboratórios de restauro e manutenção, setor depesquisa, biblioteca e área de aprendizado", comenta oarquiteto Cohen. Segundo Araújo, o museu terá caráter educativoe vai suprir a falta de espaços dedicados às variadas formas decriação forma de criação nacional."É preciso dar consciência de origem às nossas crianças,mostrar o processo de evolução da nossa sociedade", afirmou."Não será um museu puramente estético, para promover este ouaquele artista, mas um espaço educativo." Assim, o museu nãovai exibir obras de arte, mas vai privilegiar cenografias eelementos da cultura material.Inconformismo - Um fundo educativo também marca a instalaçãoIntolerância, com a qual Siron Franco expressa seuinconformismo diante do perigoso crescimento de sentimentosdiscriminatórios. "Depois da rápida visão de corpos acumulados,não tive sossego enquanto trabalhasse essa idéia", conta oartista, que percorreu diversos brechós para comprar roupas esapatos usados. "Tinha de ser usado, pois dava maisautenticidade por ser um material que foi utilizado por alguémem um momento da vida."Com as roupas às mãos, Franco comprou espuma suficiente paraservir de enchimento - assim, cerca de 800 bonecos foramempilhados indistintamente. A surpresa fica por conta de algunspés de boi que se misturam entre os sapatos. "A vida como umtodo é diariamente esmagada", comenta.Serviço Intolerância, Cidadania; Declaração Universal dos Direitos doHomem e Cotidiano Vigiado - Repressão, Resistência e Liberdade. De terça a domingo, das 10h às 17h. Local: antigo Prédio do DOPS. Praça General Osório, 66. Até 8/8.Abertura às 20h para convidados.

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