São Paulo é retomada como tema de romance

O escritor Luiz Ruffato, uma das revelações da prosa brasileira, já afirmou em entrevista que há dois tipos de autores: aqueles que "contam" uma história e aqueles que "escrevem" uma história. Neste seu terceiro livro, que acaba de sair pela Boitempo Editorial e se intitula Eles Eram Muitos Cavalos, Ruffato está exatamente na intersecção entre um e outro. E já devo dizer que, a meu ver, o autor se dá muito melhor contando histórias.Independentemente disso, é bom assinalar que Muitos Cavalos é uma aparição novíssima da roupagem do romance brasileiro. O trabalho de concepção do livro é, sem dúvida, atraente, sedutor, talentoso. O livro, o objeto em si, é outra referência. Está de parabéns a Boitempo pelo ótimo trabalho exigido por um texto tão charmoso quanto particular (o capista e diagramador Antonio Carlos Kehl não deve de forma alguma ser esquecido, pois o trabalho quase recorrente de espacialização do texto, proposto por um escritor que também é jornalista, foi um dos bem vencidos desafios da edição). Não é demais tratar de questões que de antemão se apresentam ao leitor. Num texto de apresentação, a crítica Fanny Abramovich observa que o conteúdo das 152 páginas de Muitos Cavalos são uma golfada (inúmeras golfadas) de acontecimentos, vozes, ruídos, balbúrdia urbana traduzida para a página de livro por uma mão e um olhar complexos, bem imbricados. Na última frase, Fanny sintetiza sua experiência de leitura ("Visceral!"). Fragmentos - Outras informações sobre o livro, bem trabalhadas, dão mais pistas ao leitor sobre o que o espera ao avançar páginas adentro: trata-se de um olhar de caleidoscópio sobre a Paulicéia, um apanhado geral e fragmentário sobre a vida da urbe, através das vozes mais díspares, das situações mais inusitadas ou banais, das histórias mais estranhas e, por outro lado, comuns. Tudo isso serve como guia de leitura para Eles Eram muitos Cavalos, título que por si só, além de explicativo, atrai o leitor - e é proveniente de uma bela estrofe de Cecília Meireles que diz o seguinte: "Eles eram muitos cavalos/ mas ninguém mais sabe os seus/ nomes, sua pelagem, sua origem..." Luiz Ruffato, escritor, ensaísta e jornalista, é autor dos livros de contos Histórias de Remorsos e Rancores, 1998, e (os sobreviventes) - assim mesmo, entre parênteses e em letra miúda -, de 2000, ambos pela Boitempo. Com (os sobreviventes), conquistou menção especial do badalado prêmio cubano Casa de las Américas neste 2001 - por ter sido considerado o "melhor livro publicado em língua portuguesa" no ano passado. É autor ainda de três livros de poesia - títulos que ele prefere esquecer, embora se saiba que tem pelo menos mais um (As Máscaras Singulares) engavetado. Ruffato é mineiro da literária cidade de Cataguases (nasceu em 1961). A história de sua vida é até aqui, em si mesma, um romance. É o próprio autor que conta que já foi, entre outras coisas: pipoqueiro, balconista de armarinho, caixeiro de botequim, jornalista, sócio de assessoria de Imprensa, gerente de lanchonete e vendedor de livros autônomo. Nada mau.Talvez cabendo dentro dessas informações biográficas pudesse acrescentar que Luiz Ruffato é o menos mineiro dos escritores que Minas deu à luz. Muitos Cavalos é a prova fina disso. A vibração de Ruffato ao reproduzir as vozes e imagens paulistanas entrecortadas, sua veia para captar as centenas de acontecimentos que desfilam por todo o livro são uma espécie de prova dos nove do seu estilo (com isso teríamos outro fato singular: o de que talvez o destino dos escritores mineiros migrantes já não seja mais o Rio de Janeiro, mas sim São Paulo). Voltemos ao livro. Estamos num terreno híbrido em que referências como Oswald de Andrade, João Guimarães Rosa e o irlandês James Joyce são certamente corriqueiras. De qualquer maneira, são apenas uma espécie de pano de fundo utilizado aqui e lá, sem que o apurado estilo de Ruffato perca com as recorrências. Finalizando, a aventura de Eles Eram Muitos Cavalos já se constitui em si mesma um grande capítulo da epopéia deste ano frenético e desarvorado. Penso que daqui a uns bons tempos alguém poderá perfeitamente se lembrar de 2001 como "aquele" em que Muitos Cavalos foi publicado. Convenhamos, não é pouco.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2001 | 14h55

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