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Santos e finados

Pergunte a seus filhos e netos o nome dos bisavós e, provavelmente, poucos saberão

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2017 | 02h00

Hoje é dia de Todos os Santos. Na França, Toussaint é uma pausa de outono, um feriado importante. Nos EUA, é apenas o pós dia das bruxas, já que (findada a libertação) após ter libertado todos os demônios no dia 31 de outubro, Deus libera os santos a primeiro de novembro.

Acabei de lançar um livro intitulado Santos Fortes (Rocco). Em parceria com o professor Luiz Estevam de Oliveira Fernandes, identificamos alguns dos santos que marcam a religiosidade tradicional do Brasil. Nele, tratamos dos grandes santos da veneração brasileira, como São Francisco, Santo Antônio, São Longuinho, São Judas Tadeu, Santo Expedito, São Jorge, São Sebastião, Santa Bárbara, São João Batista e, claro, Nossa Senhora Aparecida. Também analisamos alguns santos que não são oficiais, mas encontram grande apelo popular, como o padre Cícero.

Mas o que é um santo e por que são tão presentes nas vidas de tantos de nós? Os santos são finados famosos, mortos na Terra e imortais na glória celeste. Seus poderes de intercessão, defendidos por ramos cristãos, como o catolicismo ou os ortodoxos (gregos, russos etc), é algo também muito pessoal. Se o santo atende a meu pedido, pulo, imprimo santinhos, rezo, pago penitência. Por outro lado, ai do santo se me ignorar! Viro-o de cabeça para baixo e puno sua imagem como magia primitiva.

Ao dia de Todos os Santos, sucede o de Finados por lógica religiosa. O santo pode ser um morto famoso. A maioria será defunto anônimo. No entanto, o nosso destino inequívoco é o mesmo: alguma tumba.

Ter um dia de Finados parece lógico, certo? Mas é algo novo. Os romanos antigos fugiam das catacumbas. As leis da cidade eterna proibiam que alguém fosse queimado dentro de Roma. Júlio César foi uma notável exceção.

No século 19, aumentou o hábito de ir a cemitérios. As famílias criaram vínculos com os túmulos. No filme Volver, de Almodóvar, a primeira cena mostra mulheres em cemitérios limpando as tumbas dos entes queridos. É um hábito em extinção. Os jovens, na sua grande maioria, não desenvolvem ritos funerários ou devoção a túmulos. Isso, somada a uma medicalização/higienização da morte, pode nos levar ao abandono de nossos campos santos no futuro. Virarão praças?

Não apenas os cemitérios correm risco de desaparecer. Pergunte a seus filhos ou netos o nome dos bisavós e, provavelmente, poucos saberão. Em mundo de selfies e memórias na nuvem, as fotos antigas em preto e branco com imagens familiares tendem a receber pouca atenção. Tirando pessoas como o duque de Cambridge, herdeiro do trono do Reino Unido, quem pode identificar muitas gerações da sua família?

É curioso supor que não apenas desaparece o hábito de cuidar de tumbas, mas some o próprio interesse pelos mortos. No livro extraordinário de Erico Verissimo, os mortos de uma cidade voltam a público para reclamar o descuido com seus corpos (Incidente em Antares). Fantasmas, na tradição popular, aparecem quando há crimes irresolutos ou algo que deve ser revelado.

Já tivemos civilizações fúnebres como a egípcia. O esforço da sociedade às margens do Nilo era concentrado em suntuosas construções voltadas ao outro mundo, à preservação do físico para a tranquilidade do Ka, o duplo, algo que, grosso modo e de forma limitada, pode ser entendido como alma. Pirâmides, mastabas, hipogeus, livro dos mortos, imagens e oferendas constituíam um sistema voltado à eternidade. A crença atingia a mumificação de gatos, do touro Ápis e de crocodilos.

Houve civilizações com pouca atenção ao destino do corpo. Era o caso da Pérsia após a vitória do Zoroastrismo. Deixados em “torres de silêncio”, os cadáveres eram abandonados a aves de rapina. Havia vida após a morte, mas a materialidade humana era irrelevante para obtê-la.

O México é um caso à parte. Cruzando ritos pré-hispânicos com influências cristãs, o dia de los muertos é uma festa. Passei a data em Oaxaca, certa feita. Piqueniques em cemitérios, bombons com caveiras de chocolate, altares com fotos dos falecidos e tudo o que apreciavam em vida. A atividade nos cemitérios é intensa e crianças brincam em meio a jazigos. O México é uma exceção cultural.

Podemos descobrir muito sobre nossa civilização avaliando a indiferença dos jovens ocidentais aos ritos fúnebres e à memória genealógica. “Eu não gosto de enterros”, confessou-me um adolescente da família. Pensei comigo: quem gosta? O futuro está incerto para vivos e mortos. Bom feriado para todos!

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