Luciana Prezia/AE-29/09/2011
Luciana Prezia/AE-29/09/2011

Santoro encara MacGyver

Globo resgata trama política no primeiro telefilme do canal

Alline Dauroiz, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h05

Com um araponga à la MacGyver, Rodrigo Santoro em cena e toques de humor, a Globo volta a apostar em uma trama política, gênero há tempos esquecido pela emissora e que, agora, aparece no especial Homens de Bem - no ar nesta quinta-feira, às 22h35 - e, logo, na minissérie Brado Retumbante, que estreia em 17 de janeiro e trata da vida de um presidente da República fictício.

"Acho ótima essa retomada (das tramas políticas). Além de ser um assunto muito interessante, existe uma criminalização da política. É importante falar disso na ficção, para que a gente reflita de outra maneira. (O filme) Cidade de Deus é uma ficção que abriu os olhos de muita gente para a periferia", diz Jorge Furtado, autor e diretor de Homens de Bem. Coprodução da Globo e da gaúcha Casa de Cinema, o especial tem produção de Guel Arraes, nome por trás de TV Pirata, Comédia da Vida Privada e O Auto da Compadecida.

Inspirada na realidade, a história foi criada por Furtado há cinco anos, no auge do mensalão, e segundo o diretor, "infelizmente continua atual", com referências a malas de dinheiro, escutas ilegais, encontros secretos em hotéis, subornos e corrupção.

"Achei que esse submundo da política e da espionagem industrial rendia boas histórias. Quem são esses caras que grampeiam os outros e trabalham pra qualquer lado? Quem chama um cara desses pra armar uma arapuca?", lembra Furtado.

O cara, no caso, é Alcebíades, o Ciba (Santoro), um detetive que, à margem da lei, envolve-se em uma investigação da Polícia Federal para combater um crime do colarinho branco. Afeito ao chamado laboratório de personagem, Santoro conversou com detetives e policiais, descobriu toda sorte de aparelhos de espionagem e aprendeu truques do que Furtado chama de "MacGyver brasileiro", em referência ao ex-agente secreto de Profissão: Perigo, sucesso nos anos 1980.

Contratado pelo delegado Ulisses (Luis Miranda) - que não é de seguir procedimentos legais -, Ciba deve flagrar o empresário César (Guilherme Weber) subornando o deputado federal Ricardo (Fulvio Stefanini). O dilema e a saga de Ciba começam quando a policial honesta e legalista Cristina (Virgínia Cavendish) descobre a ação do colega da PF e passa a perseguir o araponga.

Longe da leveza de Decamerão - A Comédia do Sexo, série de Furtado que foi ao ar em 2009, ou de outros trabalhos do diretor - como os longas Saneamento Básico, Meu Tio Matou um Cara e O Homem Que Copiava -, Homens de Bem promete ser mais denso.

"Duas características desse trabalho remetem às séries americanas: a primeira é que Ciba é um anti-herói, ou um herói ambíguo, como Tony Soprano (mafioso da série 'Família Soprano'). Ele trabalha para quem pagar mais e faz coisas ilícitas", explica Furtado. "Outra é que fizemos uma mistura de gêneros. House não é uma mistura de Sherlock Holmes e dramas de hospital? Nós somos a mescla de thriller policial, thriller político, romance e humor."

Uma coisa, porém, une essa produção a outros trabalhos de Furtado. "Insisto em falar de dinheiro em quase todos os meus filmes." Assim, além das malas recheadas, os personagens falam em valores o tempo todo, desde quanto custa uma fechadura até quantos milhões vão oferecer de suborno. "É algo que pouco se vê na ficção brasileira. Nos EUA, todo mundo fala quanto ganha, mas não fala de sexo. No Brasil é ao contrário. Dinheiro parece assunto proibido."

Telefilme. O tema pouco usual não é o único inusitado desse especial. Com um capítulo de 78 minutos, Homens de Bem tem formato de telefilme, algo ainda inédito na Globo, mas comum, por exemplo, na TV americana e britânica (por aqui, a Record já se aventura no estilo, com O Madeireiro e O Menino Grapiúna, que vão ao ar, respectivamente, amanhã, à 0h15, e terça, também à oh15).

"Eu e o Guel Arraes estamos há tempos experimentando novos formatos: minisséries de quatro episódios, de 16, de 30; séries semanais com 30 minutos... Fazer um telefilme é uma ideia antiga, que o (diretor-geral de entretenimento da Globo) Manoel Martins abraçou", conta Furtado. "Porque se a gente quiser aprofundar uma história policial e política como essa, é difícil fazer em 30 ou 40 minutos, tempo de um especial normal. E dividir isso em episódios ficaria muita coisa. Era história para um longa-metragem. Foi o que a gente fez."

Segundo o diretor, o telefilme, que vai ao ar após a novela das 9, no horário de três linhas de show do canal, é uma experiência que, se der certo em audiência, pode abrir espaço para outras produções do tipo.

"A gente espera que segure o ibope, porque a audiência sempre cai entre um programa e outro. Mas, se o cara já começou a assistir (ao telefilme), não vai desligar, né?"

Gravado durante 15 dias de junho, em locações de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o telefilme também é a estreia de Furtado na alta definição - até Decamerão, o diretor só filmava em película 16 mm - e, dependendo da agenda dos atores, pode ter repeteco na TV no ano que vem.

"Juntar Rodrigo Santoro, Débora Falabella e Virgínia Cavendish não é fácil. Débora vai entrar numa novela (a atriz é protagonista de 'Avenida Brasil', próxima trama das 9) e Santoro filma fora do Brasil. Mas, quem sabe, se a audiência ajudar, quando Avenida Brasil acabar, a gente não volte ao ar? Material eu tenho pra mais duas ou três histórias, pelo menos."

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