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Santo pecador

Até bem perto de morrer, fez agora um ano, Edson Nery da Fonseca falava da vontade de “passar despercebido”. Como se fosse possível, lhe dizia eu – e provocava: como não ser notado, ainda mais em Pernambuco, alguém que mede 1 metro e 90 e tem, herança de uma avó inglesa, pele rosada e olhos azuis?

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

30 de junho de 2015 | 02h00

Edson foi em minha vida um ganho não previsto. De Olinda, me ligou ao saber que eu preparava uma biografia de Jayme Ovalle, e se dispôs a me ajudar, pois fora próximo de Manuel Bandeira, o maior amigo de meu personagem. 

Tinha muito mais munição: pertencente à categoria hoje rarefeita do homem de letras, era um grande conhecedor da cena literária brasileira da primeira metade do século 20, à qual chegou também por ter sido um dos pioneiros da moderna biblioteconomia no Brasil, e seu saber se esparramava ainda por saborosos bastidores. Edson não posava de sábio, mas era evidente que não se limitara a organizar livros nas estantes.

Ninguém conheceu como ele a vida e a obra de Gilberto Freyre, a quem se ligou de amizade na juventude e que veio a ser objeto de vários de seus livros. Um gilbertólogo, diziam. Nada disso, retrucava: gilbertófilo. 

Tinha muito o que dizer esse amigo temporão, chegado na minha maturidade e no seu crepúsculo– e o dizia com enorme graça, pois era um artista da boa conversa. Merecia o rótulo que aplicou em Gilberto Freyre, de “grande sedutor”. Sabe disso quem o viu como ator principal do documentário Casa Grande & Senzala, de Nelson Pereira dos Santos, elegante não só pelo chapéu panamá e o impecável terno branco. 

Por alguns anos batemos bola sem jamais nos vermos. “Meu querido amigo desconhecido”, saudava ele a cada telefonema. Íntimos via Embratel, só fomos nos conhecer de corpo presente em 2008, quando fui a Olinda com amigos comuns, a artista plástica Germana Monte-Mor e o psicanalista e documentarista José Inácio Parente. Ainda caminhava, mas já passava a maior parte do tempo numa poltrona, em meio ao langoroso trânsito de sua gataria – chegou a ter mais de 30 –, na mesma sala onde seria velado. Uma das gatas, a Daminha, monopolizava seu colo, e, quando ele faltou, subiu, carente, no seu caixão.

Irrigada por uma memória de primeira ordem, a prosa de Edson rendeu naqueles dias, sem cansaço nosso, dez horas de ouro que José Inácio planeja refinar para um documentário. 

Não me lembro dele agora só pelo primeiro aniversário de sua discreta partida (sim, daquela vez conseguiu passar quase despercebido), aos 92 anos, mas também porque está aí mais uma Festa Literária Internacional de Paraty – e a Flip, para mim, tem e terá sempre um tanto de Edson Nery da Fonseca. Esteve lá em duas ocasiões, e em ambas tocou o coração de quem foi vê-lo e ouvi-lo na Tenda dos Autores. 

Em 2010, quando se homenageava Gilberto Freyre, Edson quebrou o tom convencional do debate ao desfiar, de memória, durante 6 inesquecíveis minutos, um raro poema do homenageado, Bahia de Todos os Santos e de Quase Todos os Pecados. Era um craque na arte de dizer poesia (o verbo era esse, dizer, e ele reagia se o chamavam de declamador). 

Na Flip de 2009, dedicada a Manuel Bandeira, coube a mim conduzir um papo de que participou também Zuenir Ventura, ex-aluno do poeta. Edson ali estava como conhecedor da obra e do autor, a quem esteve ligado desde os anos 1940. Gravou disco com poemas dele. Naquela tarde em Paraty, troquei as perguntas da plateia por cinco poemas. O terceiro foi Evocação do Recife, e de tal modo a interpretação de Edson emocionou o público que decidi encerrar o encontro, certo de que nada de melhor poderia vir. Semanas atrás, recebi um vídeo doméstico em que, numa cama de hospital armada em sua sala, Edson Nery da Fonseca, bem próximo do fim, diz esse poema pela última vez.

A ele devemos o livro Poemas Religiosos e Alguns Libertinos, de Bandeira – não fosse o próprio Edson sutilíssima combinação de uma coisa e outra. Por pouco não foi monge, e morreu oblato da ordem dos beneditinos, cujo hábito pediu que lhe vestissem para ser enterrado. Mas não se furtou aos apelos da carne, atendidos com uma paixão sem alarde. 

Lembro de conversas que tivemos em sua casa, nas quais, sem um pingo de vulgaridade, ele me entretinha com aventuras eróticas, suas e alheias, relatos que o sino do Mosteiro de São Bento, ali ao lado, vinha às vezes atropelar, anunciando hora de oração. Edson pedia licença, cerrava os olhos e submergia por segundos em preces mudas de santo pecador, antes de retomar, no mesmo ponto e tom, a narrativa interrompida.

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