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Santo para toda serventia

Não será por falta de padroeiro que ficaremos na mão. Até para churrasqueiro tem santo protetor

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

07 de maio de 2019 | 02h00

Sem que precisasse invocar, vi meus domínios invadidos, nos últimos dias, por uma revoada de santos – justo eu, pecador sem 1 centavo de crédito nas Alturas. Se fosse algo daninho (não é), nem poderia me queixar, pois fui eu mesmo o responsável por desatar o vagalhão hagiológico, ao preencher este espaço, na semana passada, com uma enumeração de santos de variada procedência e serventia. De todo canto vieram fichas de entidades celestiais e respectivas prescrições.

Assim tomei conhecimento da existência, entre muitos, de São José de Cupertino – o “Irmão burro”, assim rotulado por ser analfabeto –, padroeiro de estudantes em aperto pré-exames. De São Francisco de Sales, protetor dos jornalistas e escritores, carentes que são de assistência, em mais de um sentido. São João Crisóstomo, dos locutores, Galvão Bueno incluído. São Gelásio, dos palhaços. São Arnulfo, padroeiro dos cervejeiros, São Vicente, dos viticultores, São Martinho, dos sommeliers, e, se o programa é completo, São Vicente Ferrer, patrono dos que submetem a carne, não às chamas do amor, mas à grelha de um churrasco. Santa Águeda, cuidadora dos seios e da amamentação. Santa Dinfna, dos psicólogos, possessos, sonâmbulos e um vasto etc. São Tiago, dos vendedores de sapato. São João Francisco Régis, de quem tem gripe ou resfriado. São Bento, sobrecarregado como poucos, atuante que é no combate a tentações pecaminosas de toda ordem. 

Ah, e a Nossa Senhora Aparecida, protetora, coitada, do Brasil.

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No Rio de Janeiro, o poeta Antonio Carlos Secchin depôs por um momento a lira e revelou que ele e amiga sua são devotos de santo Euplúsio. Julguei tratar-se de invenção jocosa, como certa Santa Periquita do Rabo em Pé que na infância me fazia rir. Mas não, a piedosa criatura não apenas existiu, no século 4.º, como pereceu no martírio, decapitada por se haver recusado a abjurar a fé cristã. 

Razões do Secchin e sua amiga para se devotarem a santo tão obscuro: “Primeiro, seu nome permite que ela e eu, na intimidade, o tratemos de PluPlu. Depois, pelas minhas contas, Euplúsio tem apenas mais dois ou três devotos, de modo que pode zelar bem por nós cinco. Finalmente, por ter tido a cabeça decepada, não pode ver os meus pecados.” Só faltou esclarecer qual seja a especialidade de Euplúsio, festejado por seus cinco fiéis a cada 12 de agosto. Ou será ele, na galeria dos santos, um clínico geral?

Quanto a isso, foi mais pródigo em informações o filósofo Leandro Karnal ao me apresentar São Fiacre, padroeiro dos que sofrem de mal tão ardente quanto constrangedor: as hemorroidas. Levando em conta o fato de que a crônica arrolou sobretudo santos da especial devoção da gente das Minas Gerais, o sábio Karnal ponderou: talvez devesse a cozinha mineira, “com sua cota de frituras deliciosas, vir acompanhada do santo irlandês”. 

São Fiacre, cumpre acrescentar, é invocado para outros males físicos, todos eles, como o supracitado, localizados nos países baixos. Eclético, ele é padroeiro, ainda, dos fabricantes de tijolos, telhas e manilhas de barro, dos jardineiros (em sua imagem mais corrente, tem nas mãos uma pá de jardinagem) e dos motoristas de táxi. A última categoria pegou carona no séquito de devotos porque as primeiras carruagens de aluguel em Paris, no século 17, ficaram conhecidas como fiacres – nome por sua vez adotado pelo fato de se concentrarem elas nas proximidades de um Hotel Saint Fiacre. 

O santo – e misógino – homem não permitia a entrada de mulheres na clausura que fez construir para si, no interior da França, e mesmo na capela ao lado. Conta-se que em 1620 uma dama de Paris cismou de ignorar o interdito – e no caminho perdeu a memória, para nunca mais recuperá-la.

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Mineira viajada, a Semíramis nos fez o favor de enriquecer a breve referência feita aqui a São Gonçalo de Amarante, apresentado então como santo casamenteiro com foco em moças velhas. Diz a Semíramis que, estando certa vez de passagem por Amarante, em Portugal, teve a atenção atraída por senhoras que, num canto de praça, vendiam doces, mas não quaisquer: guloseimas em forma de pênis e testículos, conhecidos como “Colhões de São Gonçalo”. 

Encontráveis também nas pastelarias da cidade, tais delícias fálicas alimentam a legenda de um santo não canonizado, mas nem por isso pouco reverenciado, capaz, há quem diga, de providenciar para viúvas uma segunda rodada matrimonial, e de devolver, a certa parte da anatomia masculina, uma rigidez que os anos inapelavelmente amolentam. Indício de que tamanho não é tudo, o doce sai do forno em variadas dimensões, dependendo, quem sabe, do porte da graça que se queira alcançar. Não se sabe, na cidade, o que do santo esperava quem encomendou, faz algum tempo, um biscoitão fálico com 21 metros de comprimento. Diante de tamanha desmesura, disse alguém, seria o caso de rogar ao Criador: “Tende piedade de nós!”.

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Contra todas as evidências, governantes e políticos têm um santo protetor, na pessoa de Santo Tomás Morus, ou More (não confundir com Moro), ele mesmo, o autor do clássico Utopia. Há quem sustente, porém, ser outro o padroeiro dos chamados homens públicos: São Dimas, com a credencial de quem foi o Bom Ladrão, um dos larápios que ladearam o Cristo crucificado. Cabe contestação da parte de quem acredite não haver, entre políticos, lugar para quem seja ladrão bom. 

No Calvário teria estado, também, vivendo um mau papel, outro futuro santo, e logo quem: o soldado que, com sua lança, perfurou o lado do corpo de Cristo, dele fazendo brotar água e sangue. Seu nome se perdeu, substituído por Longinus, em referência à maldita lança. De Longinus arrependido a São Longuinho foi um passo. Sua fama de achador de objetos perdidos teria a ver com a baixa estatura: miúdo, para São Longuinho seria fácil encontrar, por exemplo, algo caído sob a mesa.

Mas já chega de hagiografia de boteco. Nem mais um pio.

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