Santo, Ladrão e Mártir

Ocentenário de nascimento do escritor Jean Genet (1910- 1986) é comemorado na França junto ao do dramaturgo Jean Anouilh (1910-1987) e do ator e diretor Jean-Louis Barrault (1910-1994), outros dois monumentos da cultura do país. Não é uma coincidência, mas uma provocação. Genet enterrou o formalismo clássico de Anouilh e o drama burguês da Comédie Française com peças revolucionárias como O Balcão (1956), montada aqui em 1969 com direção do argentino Victor Garcia e produção de Ruth Escobar. O Balcão é até hoje um soco no estômago das instituições. Ambientada num prostíbulo, por onde circulam falsas rainhas e falsos bispos enquanto uma revolução acontece fora dele, a peça tem como protagonista a dona de um bordel, amante do chefe de polícia, que leva à morte um líder rebelde, assumindo o poder com seus clientes.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2010 | 00h00

Genet falava por metáforas, porém acabou criando novo gênero nos anos 1940 ao escrever livros autobiográficos como Nossa Senhora das Flores, O Milagre da Rosa, Querelle e o mais conhecido de todos, Diário de Um Ladrão, em que conta suas desventuras nas prisões francesas. Abandonado pela mãe solteira num orfanato com apenas 1 ano ? nascera em 19 de dezembro de 1910 ?, Jean Genet passou por diversas penitenciárias, quase sempre por roubo de lenços, cortes de tecidos, camisas e livros. Sua primeira passagem pela Patronage de l"Enfance, a Febem francesa, foi aos 15 anos, condenado por conduta fraudulenta ? gastou num parque de diversões o dinheiro do compositor cego René de Buxeuil, que o abrigara em sua casa.

Sua sorte só começou a mudar em 1943 ao ser apresentado ao poeta e cineasta Jean Cocteau que, mesmo chocado com Nossa Senhora das Flores, se propôs a encontrar um editor para o livro. Outro intelectual que o ajudou foi o filósofo Jean-Paul Sartre, autor do prefácio do primeiro volume de suas obras completas, Saint Genet, Ator e Mártir (1951). Ambos se conheceram em 1944. Quatro anos depois, Sartre e Cocteau fizeram uma petição para livrar definitivamente Genet, que passou os anos 50 em intensa atividade criativa.

Homossexual, sempre foi assombrado "pela impressão de uma existência quase póstuma", segundo o biógrafo Edmund White. Por vezes voltava-se contra si. Tentou o suicídio em várias oportunidades. Ressurgiu da última vez como ativista político, defendendo os direitos dos trabalhadores imigrantes e dos palestinos. Por ser persona non grata na França, rodou o mundo em busca de seus semelhantes, tornando-se amigo dos escritores americanos da geração beat e de árabes como Tahan Ben Jelloun. Identificado com a cultura marroquina, teve como último amante Mohammed El Hatrani, homem casado, para quem construiu uma casa ? ele que vagou pelas ruas e morreu num hotel, em 15 de abril de 1986.

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