EDUARDO NICOLAU/ESTADÃO
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Santidade na internet

João Paulo II fez 482 santos em 26 anos de pontificado; o papa argentino fez quase 900 em oito anos

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2021 | 03h00

Os “santinhos” da minha infância usavam túnicas bíblicas e tinham rostos angelicais e distantes. Tornar-se santo era um processo lento e caro. Quem podia pagar eram as ordens e as congregações, que, muitas vezes, mantinham, permanentemente, um postulador da causa em Roma. Isso explicava um céu povoado de padres e de freiras brancos e europeus.

 

Tudo mudou com o papa João Paulo II. O processo foi agilizado. A figura popularmente conhecida como “advogado do diabo” (o jurista canônico que deveria encontrar brechas no processo) foi abolida. Em poucos anos, o papa polonês tinha feito mais santos do que qualquer outro na história (até então). Com toda razão, o próprio papa foi canonizado. Um texto de autoria incerta foi atribuído a São João Paulo II: “Queremos santos de calças jeans”. Não é dele a redação, porém a ideia é completamente associada ao polonês. 

A porta da salvação é estreita, adverte o evangelista Mateus (7,13). A partir de João Paulo II, ela foi um pouco mais generosa e o papa atual ultrapassa o número de canonizações dos anteriores. Algumas referências: em 26 anos de pontificado, João Paulo II fez 482 santos. O papa argentino se aproxima de 900 santos em quase oito anos. 

Mas e os santos de “calça jeans”? Há um candidato perfeito: Carlo Acutis. Nascido (1991) no Reino Unido, de pais italianos, teve tempo de navegar bastante na internet. Morreu de leucemia em 2006. Usava as redes para falar de milagres eucarísticos. O beato (desde 2020) Acutis é jovem, teve vida exemplar e era um “influencer” católico. Seu corpo preservado está em Assis, de tênis e moletom. Há músicas modernas sobre ele em várias línguas e, inclusive, videoclipes. 

O ciberapóstolo da eucaristia tem um time que publica coisas e mantém seu nome como “trend topic” nos meios religiosos. Acutis tem duplo chamariz: menos idade e uso da internet. Há, ainda, “toques” brasileiros: ele morreu no dia de Aparecida (12 de outubro); o milagre que o tornou beato veio daqui e muitos religiosos que atendem no santuário onde está o corpo são do Brasil. Se for canonizado, algo com certeza quase absoluta, ele será mais adequado como padroeiro da internet que, à falta de nome mais contemporâneo, João Paulo II (sempre ele) atribuiu a Isidoro de Sevilha. 

Com esperança, Carlo Acutis, o beato millennial, pode exorcizar nossas redes. Amém! 

* LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS,

AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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