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Santarrões e Sebastiões

As manchetes no Brasil e no mundo foram as mesmas: “Trump não é moralmente capaz de ser presidente”

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2018 | 06h00

Ele estava em toda parte. Sua turnê publicitária sugou o oxigênio do noticiário durante a semana passada, acompanhada pelo contraponto das ofensas do tuiteiro serial da Casa Branca. Especiais de TV, podcasts, entrevistas a jornais, revistas e uma noite de autógrafos que atraiu gente na fila desde as 6 da manhã. Ele sentou também na poltrona do talk-show de Stephen Colbert, tomando vinho com o anfitrião, dizendo gracinhas como, “eu sou como o namoro que terminou e ele não aceita até hoje”. Assim o ex-diretor do FBI James Comey se referiu ao presidente dos Estados Unidos.

As manchetes no Brasil e no mundo foram as mesmas: “Trump não é moralmente capaz de ser presidente”, dizia, do alto de seus 2 metros de altura, o ex-principal policial federal do país, comparando o presidente a chefes mafiosos que processou. Ele foi demitido de forma humilhante em maio passado, depois de encontros com o presidente detalhados em memorandos revelados na última quinta-feira. Os memorandos confirmam a narrativa do best-seller de James Comey, Uma Lealdade Maior: Verdades, Mentiras e Liderança.

O livro não é apenas sobre o presidente, é sobre vida pública e liderança. São as memórias de um funcionário de carreira na Justiça, que processou o crime organizado e também se arriscou. Quando era subsecretário de Justiça, Comey disse ao então presidente George W. Bush que não podia acatar sua definição do Poder Executivo, no período pós-11 de setembro, marcado por abusos de espionagem. Quando a Casa Branca tentou passar ao largo de Comey, mandando emissários para forçar o secretário de Justiça a assinar uma lei de espionagem inconstitucional na cama do hospital, ele ligou a sirene de seu carro, correu para o hospital e impediu a assinatura.

É o tipo de história que Comey se delicia em contar. Mesmo antes da demissão provocada, como ele escreve, pela recusa em declarar lealdade pessoal ao presidente, Comey abriu uma conta no Twitter sob pseudônimo. O nome da conta era o do teólogo Reinhold Niebuhr, tema da tese universitária de Comey.

Veio a demissão e o pagamento adiantado de US$ 2 milhões pelo livro cuja blitz publicitária, 11 meses depois, é o sonho de qualquer autor. Se o país está sob o comando do personagem descrito por Comey, por que segurar a informação por tanto tempo do público que diz ter dedicado sua vida a servir?

O conhecido analista de pesquisas Nate Silver não é o único a se debruçar sobre números e concluir que James Comey virou a eleição americana na reta final, ao mandar uma carta ao Congresso, que, sabia, seria vazada, afirmando ter descoberto novos e-mails de Hillary Clinton no computador do marido de sua assessora. Não eram novos. Em dois dias, o FBI concluiu que eram os mesmos e-mails, os que levaram o Departamento de Justiça a concluir, em julho de 2016, que não havia indício de crime e a candidata não seria processada.

Mas, em julho, Comey fizera questão de anunciar o não processo com um ataque à negligência de Hillary, quando o seu papel tradicional na Justiça americana era processar ou se calar. Repetiu o impulso de justiceiro santarrão ao escrever a carta 11 dias antes da eleição, admitindo que tinha certeza da vitória de Hillary e temia o vazamento da “descoberta”. Sabemos que o FBI de Nova York vazava para o über trumpista e ex-prefeito Rudolph Giuliani.

James Comey disse que faria tudo de novo. Depois de me submeter a horas infindáveis de suas reflexões, montado no cavalo branco que reservou para si, não tenho dúvida. O sebastianismo de funcionários públicos, especialmente no Judiciário, pode ter consequências catastróficas. Consumido pela vaidade de polir a história pessoal, Comey sabe, mas não admite as consequências de sua santimônia para a história do país.

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