Santana tira onda com rock alheio

Santana é um mistério. Homem de bom gosto mesmo não fazendo mais o latin rock que o tornou grande no Woodstock de 1969, ele ao mesmo tempo tem ideias de tirar o sono dos que se preocupam com sua saúde mental. Santana acredita que o mundo deveria ter um só governo, formado por representantes de todos os países. Uma espécie de ONU, mas com um chefão que desse as ordens do que deveria acontecer em todas as nações.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2010 | 00h00

Quando toca, Santana adota posturas mais, digamos, conservadoras. O disco que lança agora é erguido sobre a terra mais firme em que um roqueiro pode pisar: Led Zeppelin, Cream, AC/DC, The Doors, Jimi Hendrix. Foi com as "mais mais" de cada um que o mexicano fez seu álbum, Guitar Heaven - The Greatest Guitar Classics of All Time.

É o anti "trabalho autoral", o cover descarado. E o melhor: é muito bom. É Santana ligando sua guitarra na garagem para tirar onda com os amigos. Um lembra aquela dos Beatles, outro lembra aquela do Stevie Wonder. Whole Lotta Love, do Led, tem voz de Chris Cornell; Sunshine of Your Love, do Cream, vem com Rob Thomas à frente. E While My Guitar Gently Weps, dos Beatles de George Harrison, tem a voz e o ambiente sonoro do R&B sintetizado de India.Arie com cordas de violoncelo de Yo Yo Ma. É um equívoco por tirar o calor indispensável a uma música como essa, seja lá qual for o arranjo.

Mas o disco segue divertido com Back in Black, do AC/DC. Se o leitor se lembrar do riff de guitarra dessa música, fica fácil: sobre esse riff atravessa um discurso rapper de NAS, bem a la Rum DMC e Aerosmith em Walk This Way. E vem ainda Riders on the Storm, dos Doors, com Chester Bennington e o tecladista Ray Manzarek. Aqui Santana faz-se reconhecer em solos que voam sobre nuvens daqueles órgãos de missa em tonalidades menores que convidam a percussões latinas. Santana vai mais longe com Little Wing, de Hendrix, com voz de Joe Cocker. Aí é covardia. Música de Hendrix cantada por Cocker e solada por Santana. Pedras deverão voar sobre seu telhado, mas vamos com calma. Alguém com seu histórico pode dar-se ao luxo de fazer um som num barzinho do Bexiga.

Áudio. Ouça trecho da música Little Wing

ROCK

NEIL YOUNG

LE NOISE

Reprise. Preço: a partir de US$ 9,97 (amazon.com)

Young e Lanois: voz, guitarra e estranhamento

São 38 minutos, 8 faixas, a voz e a guitarra de Neil Young: o suficiente para provocar controvérsias com uma experiência um tanto radical. Afinal, é Neil Young. Ainda disposto a experimentações, desta vez o herói do rock canadense conta com uma figura quase tão lendária quanto ele na produção - Daniel Lanois, que deixou sua marca em álbuns como The Unforgettable Fire (1984) do U2, e é do tipo "ame ou odeie". A interferência de Lanois é notável nas três primeiras faixas, cheias de efeitos e distorções impactantes. Na pungente Love and War, Young assume a guitarra acústica e tudo muda de figura. É daquelas canções que se o mundo hoje se detivesse no valor artístico de certo tipo de música, viraria hit e daí para clássico. Mas lá vem o dedo de Lanois na seguinte, provocando novo estranhamento - o que não é de todo negativo. Ainda que esporadicamente nos últimos anos, Young se mantém capaz de criar belas melodias, como as de Love and War e a épica Peaceful Valley Boulevard. Ele andou dizendo que Le Noise tem uma sonoridade revolucionária. Comparado ao que está aí no mercado, talvez esteja radicalmente certo. /LAURO LISBOA GARCIA

FUNK SOUL

JOHN LEGEND

THE ROOTS

Sony. Preço: R$ 32

Todo o bem que Obama faz ao som de John Legend

Foi no calor do verão de 2008 que John Legend (foto) se encheu de orgulho para entrar em um estúdio de Nova York e reafirmar toda a música que pode sair de sua negritude. Legend estava eufórico com a eminência de ter como presidente um "irmão" como Barack Obama, que seguia em plena campanha pelo trono. O disco demorou para sair aqui e, agora, toda aquela lua de mel entre Obama e seu povo não é a mesma. Não importa. Legend usou o espírito hip-hop-soul-funk-gospel para gravar um álbum memorável como se estivesse nos anos de Motown. Quente, suingado, sem as afetações de sintetizadores que jogam baixos e baterias no calabouço, Legend canta para ser tocado na pista dos bailes black da periferia. A regravação de Hard Times, de Curtis Mayfield, é um delírio de groove seco, cheio de referências da música negra dos anos 70. Our Generation é outro funk no mesmo formato, com graves de atingir diretos no peito de quem ouve. Que Legend preserve seu otimismo para com Barack Obama. Isso lhe fez um bem danado. / JULIOMARIA

MPB

VIRGINIA ROSA &GERALDO FLACH

VOZ & PIANO

Lua Music. Preço: R$ 21

Virginia Rosa em traje intimista com Geraldo Flach

Cantora de voz e estilo flexíveis e refinados, Virginia Rosa - depois de se dedicar à obra rara de Monsueto em Baita Negão (2008) -, volta com um álbum intimista e despojado, acompanhada apenas do excelente pianista gaúcho Geraldo Flach. Apesar de registrar o encontro em CD só recentemente, eles já vêm se apresentando nesse formato de voz e piano desde 2006. O samba que vigorou também em seu álbum anterior, Samba a Dois (2006), comparece logo na abertura deste, na interpretação a capela de O Meu Amor Chorou (Luiz Marçal Neto) e na bela versão de Pressentimento (Elton Medeiros/Herminio Bello de Carvalho). Virginia também canta baião, balada, folclore gaúcho, renova clássicos meio batidos como Maria, Maria, Dindi, Taí, Kalu, Upa, Neguinho e Qui Nem Jiló, surpreende com Mercedita (Ramón Sixto Rios) e traz o frescor de Cacilda (José Miguel Wisnik) e A Flor (Fernando Figueiredo) em duos impecáveis com Flach. / LAURO LISBOA GARCIA

ROMÂNTICO

EVALDO GOUVEIA

ROMÂNTICO E SENTIMENTAL

MZA Preço: R$ 23

Sinceras dores de amor do boêmio Evald

Felizes somos nós, os habitantes do reino do romantismo. São essas palavras que abrem o disco do cantor cearense Evaldo Gouveia. Evaldo, que aos 7 anos já se destacava no alto falante da praça de sua cidade, é um fenômeno de público por saber como poucos criar canções que se prendem frase a frase no imaginário de seu público. O disco, gravado ao vivo em 2001, é uma espécie de "melhor de Evaldo", acompanhado pelo público (muitas vezes, um desperdício). Estão ali Brigas, Sentimental Demais, Que Queres Tu de Mim, O Trovador e Cama Vazia. Sempre Dolorido, mas Sincero. / JULIO MARIA

TRILHA SONORA

VÁRIOS

SCOTT PILGRIM VS. THE WORLD

Universal Preço: R$ 24,90

A boa mão de Beck na banda de Scott Pilgrim

Mais um filme pop, mais uma compilação do gênero competindo com a trilha incidental. A que reúne canções de Scott Pilgrim Vs. the World, inspirada nos quadrinhos, tem Beck, o que de cara desperta maior interesse. Para o filme que estreia aqui, em novembro, ele compôs canções exclusivas, interpreta sozinho apenas uma (Ramona) em duas versões e outras boas como integrante da Sex Bob-Omb, a banda de Scott na história. Das reaproveitadas, as melhores são I Heard Ramona Sing (Frank Black) e Under My Thumb (Rolling Stones). Beachwood Sparks cantam uma versão melosa de By Your Side (Sade). / LAURO LISBOA GARCIA

MPB

CHICO CÉSAR

CUSCUZ CLÃ

MZA Preço: R$ 26

Só o tempo mostra: o início de Chico César foi genial

No início, Chico César era o "Caetano Veloso genérico". O rótulo durou alguns anos até que Chico se firmasse como um dos grandes criadores da música brasileira, da mesma fornada e estatura que Lenine, Rita Ribeiro e Zeca Baleiro. A grande obra de Chico, Cuscuz Clã, de 1996, é relançado agora em CD para reconfortar um público que pouco ouve falar hoje de Chico. É aqui que estão Mama África e À Primeira Vista, seus primeiros acertos pop. Mas o disco é maior que isso. Tem o reggae Mand"ela, Sirimbó, Pedra de Responsa, tudo que o firmou como um genial criador da língua portuguesa / JULIO MARIA

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