Santa Teresa abre ateliês no fim de semana

Neste fim de semana, o bairro carioca de Santa Teresa abriga a décima edição do evento "Arte de Portas Abertas". Setenta ateliês de artistas que moram ou trabalham no bairro serão abertos para visitação pública. Neles, os artistas expõem suas obras e as colocam à venda. O evento acontece desde 1996 duas vezes ao ano, sempre nos meses de maio e novembro. Com o tempo, eventos acessórios foram agregados ao calendário do "Arte de Portas Abertas", como os projetos Interferências Urbanas e Jovens Aprendizes. A rotina criada pelo "Arte de Portas Abertas" é responsável pela reviravolta no bairro de Santa Teresa nos últimos anos. Com um público que hoje gira em torno de 20 mil pessoas em dois dias de evento, foram criados cinco novos espaços para a cultura e abertos mais nove restaurantes, além dos dez de que o bairro já dispunha. "Criou-se uma relação nova com o bairro, que trouxe muitas pessoas para cá mesmo fora dos dias do evento", explica Julio Castro, artista e um dos organizadores do Arte de Portas Abertas. A cada uma de suas edições, o fim de semana dedicado à arte chega a movimentar R$300 mil, boa parte gerada pelo afluxo de pessoas aos restaurantes e por compra de obras de arte. Uma parte da arrecadação do "Arte de Portas Abertas" é retornada ao bairro em forma de melhorias. "O evento melhorou a nossa convivência social e integrou a comunidade", diz Julio, ressaltando que a auto-estima dos moradores, somada ao dinheiro do evento, pôde restaurar mais de 200 fachadas de casarões do século 19. Também a reboque dos ganhos do "Portas Abertas", projetos de resgate da memória podem ser desenvolvidos em parceria. O artista dos anos 80 Paulo Roberto Leal teve parte de sua obra restaurada pelos técnicos da Casa de Rui Barbosa. Desta vez, um dos destaques em matéria de preservação do patrimônio é o programa de cursos sobre conservação de fotografias, do Centro de Conservação e Preservação Fotográfica, órgão do Ministério da Cultura localizado em Santa Teresa. Para isso, a visibilidade gerada pelo evento foi fundamental. Julio conta orgulhoso que os mapas impressos nos convites do "Arte de Portas Abertas" são usados como fonte de consulta permanente. Nas primeiras edições, os organizadores não contavam com qualquer tipo de apoio. Hoje, a equipe formada por dez pessoas tem o apoio de três empresas - Furnas, Petrobrás e Transurb, a empresa de ônibus local - que assim pode expandir o alcance do projeto. Duas iniciativas derivadas do "Portas Abertas" são o Jovem Aprendiz e o Interferências Urbanas. No primeiro, oficinas de técnicas artísticas são ministradas a jovens carentes, que no final expõem seus trabalhos e, quase sempre, conseguem vendê-los. O Interferências Urbanas está sendo organizado pela segunda vez. Trata-se de pedir a artistas plásticos iniciantes projetos que usem o ambiente das ruas como suporte. Em maio deste ano, o estudante de Artes Plásticas Ducha foi o vencedor, aplicando filtros de cor vermelha nos refletores do Cristo Redentor, deixando-o completamente vermelho por quinze minutos. Um catálogo com as obras do Interferências Urbanas, o primeiro, será lançado hoje à noite, na abertura do "Arte de Portas Abertas". O "Arte de Portas Abertas" é um dos poucos projetos de arte que ganharam vida através da organização dos interessados. O modelo chamou a atenção do bairro, que agora dá todo apoio necessário, consciente de que haverá retorno. Cada artista participante contribui com R$ 50, e cada restaurante com R$ 100. A partir do próximo ano acontecerá apenas uma vez, em torno de junho e setembro. É o que anuncia Julio de Castro: "fazer dois por ano é cansativo". Mas ele não acha que isso vá diminuir os benefícios que o "Portas Abertas" traz para o bairro. "Conseguimos criar uma rede de relações", ele diz, "e nossa força está na integração".

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