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Santa Rosa

Pintor, ilustrador, jornalista, poeta, o artista foi também um indócil agitador de ideias

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2019 | 03h00

No dia em que o general Santa Rosa pediu demissão do governo, lembrei-me num átimo de duas coisas: da pequena cidade californiana em que Hitchcock ambientou e rodou A Sombra de uma Dúvida, em 1942, e de um artista brasileiro – ambos também batizados Santa Rosa.

Artista fenomenal, nascido na Paraíba e morto alhures há 63 anos, Tomás Santa Rosa Junior se fez sem o Tomás e o Junior. Os amigos mais chegados até o Rosa deprezaram; ele era o Santa, e estávamos conversados. Pintor, ilustrador, jornalista, crítico de arte, cenógrafo, poeta, um dos primeiros leiautistas do Brasil – Santa foi tudo isso e também um indócil agitador de ideias.

Criador de revistas e grupos teatrais, professor de artes plásticas e dramaturgia, leitor onívoro e melômano dos mais ecumênicos (tocava piano, cantava, adorava música erudita, jazz, sambas carnavalescos, mas só sabia trabalhar ao som de Vivaldi, Haydn e Mozart), Santa Rosa era um renascentista perdido nos trópicos – “irradiantemente grande, poderoso nas suas intuições, agudíssimo nas suas percepções, espantosamente penetrante, percuciente, lúcido”, nas palavras certeiras de Franklin de Oliveira

Otto Maria Carpeaux definiu-o como “um artista enciclopédico, um condensador do espírito da literatura brasileira”, pelas dezenas de capas que desenhou para a editora José Olympio. Parecia entender de quase tudo o que importa neste mundo, em especial de artes visuais e de música. 

Fosse o Brasil minimamente decente e seu nome ainda hoje seria lembrado em museus, teatros e livros. A rua com que tardiamente o homenagearam fica nos cafundós da zona norte do Rio, próxima à estrada Rio-São Paulo. 

Os 50 anos de sua morte passaram despercebidos – e não apenas pela mídia. Até pela dificuldade de localizar no Brasil o paradeiro de suas obras mais expressivas, ficaram-lhe devendo uma retrospectiva à altura. O MoMA de Nova York tem um quadro dele em seu acervo; já o único que o MAM do Rio possuía foi devorado pelas chamas em 1978. Logo o MAM, que ele ajudara a fundar. 

O Teatro Santa Rosa, em Ipanema, virou garagem nos anos 70; a placa de bronze que em sua homenagem afixaram no Teatro Municipal do Rio sumiu. Ao proscênio da memória ele só conseguiu voltar em 1993, no cinquentenário da primeira montagem de Vestido de Noiva, cuja revolucionária cenografia ele concebeu, quando a Bookmakers editou o álbum A Vida Ilustrada de Tomás Santa Rosa, assinado por Cássio Emmanuel Barsante

Com seu traço, vez por outra, a gente cruza, ao bater os olhos nas capas originais de romances de Graciliano Ramos, Mario de Andrade, Lúcio Cardoso, Jorge Amado, José Américo de Almeida, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Marques Rebelo, Cornélio Penna e tantos outros. Sem contar as poesias de Castro Alves, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

Foram 220 capas ao todo, ao longo de duas décadas. “Meus livros são teus livros, nessa rubra capa com que os vestistes”, reconheceu Drummond, na elegia que ao amigo dedicou em novembro de 1956, quando um enfarte o matou em Nova Délhi, na Índia. Ele morreu “unindo Paraíba e Índias do leste”, observou o poeta. 

Mulato claro e retaco, careca e de cara larga, calmo como um mestre zen, fazia o gênero bonachão e só perdia a cabeça por causa de mulher. Adorava camarão, comprar livros, conversar com os amigos, alunos inteligentes, banho morno, ler deitado e andar de táxi. Além da pintura acadêmica, detestava ironia, bonde, motocicleta, casa desarrumada, roupa marrom, esportes em geral, e a valsa Saudades de Matão. 

As rodas boêmias do Rio disputavam sua presença. “Sem o Santa, os papos no Simpatia (extinto bar da av. Rio Branco) ficavam menos animados”, admitiu, sem receio de magoar os demais habitués, o poeta Raul Bopp, que por uns tempos formou com ele, Oswald de Andrade e Álvaro Moreyra, um quarteto da fuzarca, volta e meia acrescido de outros boêmios históricos, como Rubem Braga e Lúcio Rangel. 

Santa Rosa desprezava a ascese geométrica dos abstracionistas, venerava os pintores da Renascença italiana e seu quase irmão Portinari, de cuja influência não conseguiu escapar. Tendia à mistura, ao mulatismo estético: “Sou um temperamento integrativo, venoso e unânime”.

No palco, revelou-se um desbragado construtivista apaixonado pela luz cavernosa do expressionismo. Sua ousada recriação do espaço cênico nacional antecedeu de cinco anos a chegada do polonês Ziembinski ao Brasil. Antes de bolar os engenhosos praticáveis e os 140 efeitos de luz de Vestido de Noiva, já havia assombrado os frequentadores do Municipal com fantásticas soluções cenográficas para Orfeu, Pelléas e Mélisande, e diversas outras peças e bailados. Fez cenários e figurinos para encenações de mais duas obras de Nelson Rodrigues: A Falecida e Senhora dos Afogados. Colaborou com o Teatro Experimental do Negro, o Teatro do Estudante do Brasil, dirigiu o Conservatório Dramático Nacional – não havia limites para o versátil e insaciável paraibano.

Um dos fundadores, em 1945, do jornal A Manhã, logo deixou-se atrair pelo charme das revistas. Na primeira, Sua Revista, dividiu a parceria com José Lins do Rego e Lúcio Cardoso. Associado a Jorge Amado e Luiz Martins, criou a Rio Magazine. Lançou, ainda, Dom Casmurro (dedicada a teatro) e fez crítica de arte no extinto Diário de Notícias, substituindo Di Cavalcanti. Outro mundo.

Também se meteu em cinema, criando para Carmen Santos o primeiro storyboard de um filme brasileiro, O Desconhecido, que não chegou a ser rodado. Seu maior orgulho, contudo, foi ter participado, ao lado de Manuel Bandeira e Fernando Sabino, do júri que elegeu Marta Rocha Miss Brasil 1954. Ter sido jurado das duas primeiras bienais de São Paulo não lhe inflara tanto o peito. Já imaginou quantas coisas mais Santa Rosa teria feito, se não tivesse vivido apenas 47 anos?

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