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Santa Cecília e o governador Alckmin

A Osesp é um imenso trabalho a favor da cultura. Cuide dela com atenção redobrada

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2017 | 05h00

Caro governador

Bom dia! Ainda não tive o prazer de um encontro pessoal com o senhor. Sei que é uma pessoa muito católica e, como tal, deve saber que hoje é o dia de Santa Cecília, padroeira dos músicos e da música. A mártir é alvo de antigo e piedoso culto, decapitada jovem e bela na defesa da fé. A estátua de Stefano Maderno (igreja de Santa Cecília in Trastevere) registra a redescoberta miraculosa do corpo da virgem com o pescoço cortado pelo carrasco pagão e os dedos indicando a Trindade.

Aproveitando o dia da santa que ampara o fazer musical, queria narrar minha experiência em São Paulo. Tal como o senhor, não nasci aqui. Tal como o senhor, tornei-me um paulistano afetivo e com vínculos orgânicos com a cidade fundada por outro santo, José de Anchieta. Amo São Paulo apaixonadamente e, como já escrevi no Estadão, lar é o lugar do qual não conseguimos mais nos mudar. São Paulo é o meu lar.

A santa musical me remete a um dos polos do meu amor paulistano: a Sala São Paulo. Há anos sou assinante dos concertos da Osesp. Estar naquele espaço e partilhar do que nele ocorre é algo extraordinário. A cidade de São Paulo tem trânsito complexo e nem sempre o ar é alpino. Porém, com todos os males de uma megalópole, nós temos a Osesp. Sim, eu poderia ir para uma aldeia bucólica com oxigênio pleno e ruas tranquilas, porém teria de abrir mão dos concertos. Prefiro morrer respirando cultura com fumaça a dar aos meus alvéolos a alforria ao custo do afastamento da vida cultural. É uma escolha consciente e feliz. O bônus tem compensado o ônus.

O senhor deve saber bastante sobre a Fundação Osesp e a Sala São Paulo. Eu aprendi um pouco ao longo dos anos. A Osesp nasceu em 1954, annus mirabilis do quarto centenário da nossa urbe bandeirante. Até hoje, do Ibirapuera à Orquestra, colhemos os benefícios daquela geração empreendedora que fez do aniversário da cidade um presente para as gerações futuras.

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo tem 108 músicos, 48 cantores no coro, uma Academia com 20 instrumentistas, 20 cantores e 4 alunos de regência. Para assinantes como eu (tenho três assinaturas), há 32 semanas de espetáculos diferentes, além da pré-temporada, concertos matinais, concertos de câmara e corais. A regente Marin Alsop é uma referência internacional. A rede CNN a classificou como uma das 7 mulheres de destaque no mundo. O nível dos solistas chega a atordoar. A orquestra e a sala em si estariam bem em qualquer grande centro cosmopolita. O esforço feito para chegar ao ponto atual é épico e emocionante.

Quero falar de outra alegria, governador. Sou professor e testemunho com alegria as visitas de crianças (20 mil todos os anos) e colegas (900). Isso sempre emociona.

A Fundação Osesp administra 300 funcionários com um orçamento pequeno para a importância que tem. Menos de 50% do dinheiro daquela fábrica de belezas é do governo do Estado, o resto vem de patrocínios e ingressos. Quase 400 mil pessoas têm acesso gratuito todos os anos aos concertos e as transmissões da nossa TV Cultura ampliam o público para 5 milhões.

Já assisti naquela sala a dezenas de estreias mundiais de peças. Compro CDs gravados lá e acompanho o festival de Campos do Jordão, desde 2012 a cargo da Fundação. Do festival surgem novos talentos que fertilizam nosso futuro musical. Muitos jovens localizam no espaço da Mantiqueira a grande virada da sua carreira. É algo forte.

Um crítico apontará: ufanismo imbricado com provincianismo! Entre 2012 e 2016, a Osesp fez apresentações no famoso festival BBC Proms de Londres e tocou em espaços sacratíssimos da música como a Filarmônica de Berlim e a sala Pleyel de Paris. A Osesp já esteve no Festival de Salzburgo e no Royal Festival Hall de Londres. Uma revista especializada como a Diapason da França afirmou que nossa Osesp era a “glória sinfônica da América Latina”. Não sou eu que amo a Osesp, dr. Geraldo Alckmin, é o mundo e a crítica erudita do planeta Terra.

A Osesp sofreu, como todas as instituições, com a crise e a diminuição de repasses. Todos sabemos que o momento era difícil. Queria apenas reforçar: uma instituição do porte e da importância da Osesp não é uma fábrica de tijolos que possa ser colocada em stand by e reerguida em momento mais propício. Arte não pode ser suspensa até segunda ordem. A orquestra é viva, cresce, influencia muita gente, atende escolas públicas, melhora a cidade de São Paulo, glorifica o Estado e é uma joia extraordinária no Brasil. A Osesp é imprescindível para São Paulo!

Caro governador: sendo médico, o senhor sabe que a formação é um processo árduo e lento, que implica políticas de longo prazo. Como administrador do mais rico Estado do País, o senhor está consciente de que temos de tomar decisões políticas e distinguir o que é substantivo do que é adjetivo. A Osesp necessita da máxima atenção: ela é maior do que todos nós. A orquestra é um patrimônio público intocável.

Encerro com um duplo apelo. O primeiro: olhe com carinho muito especial pela Osesp e por tudo que ela representa. Imite a geração de 1954 que mirou além do horizonte imediato e fez história. Cultura não é gasto, é investimento. Sem ela não vale a pena atravessar dificuldades. Segundo apelo: venha mais vezes aos concertos. Literalmente: a casa é sua... Todos sabem da agenda atribulada de um governador, porém a música pode ajudá-lo a enfrentar o dia a dia e sedimentar decisões tranquilas. São Paulo é trabalho e é cultura. A Osesp é um imenso trabalho a favor da cultura. Cuide dela com atenção redobrada. Santa Cecília está de olho e eu também, bem como todos os milhões de agraciados com o esforço daquele grupo extraordinário de artistas. Boa quarta para o senhor e sua família. Parabéns a todos que fazem música no mundo!

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