Edgard Radesca / AE
Edgard Radesca / AE

Sangue latino dá aula a caça-níqueis no Caribe

Pela primeira vez sediado em Curaçao, conceituado North Sea Jazz teve como destaques Roy Hargrove, Michel Camilo, Richard Bona e Sérgio Mendes

Lucas Nobile / CURACAO, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2010 | 00h00

Estabelecido há muitos anos em Roterdã, na Holanda, e um dos festivais mais conceituados da Europa, o North Sea Jazz Festival foi realizado pela primeira vez em Curaçao, no Caribe. No último fim de semana, o evento na ilha de colonização holandesa recebeu 17 mil pessoas (10 mil na sexta e 7 mil no sábado), em sua maioria turistas, deixando algumas lições a serem aprendidas para as próximas edições, já que Curaçao receberá o festival pelos próximos dois anos, com possibilidade de renovar contrato para mais duas temporadas.

Levando-se em conta que esta foi a primeira vez que a ilha do ABC caribenho (Aruba, Bonaire e Curaçao) sediou um festival de nome tão importante, a balança aponta mais acertos do que erros na contagem final. Entre os destaques, a organização do festival e a estrutura dos três palcos, com equalização de som muito bem feita. Em relação aos pontos negativos, primeiro deve-se ressaltar o alto preço dos ingressos (US$ 165 para uma noite ou US$ 300 para duas), que fez com que o festival fosse invadido basicamente por turistas e não pelos residentes da ilha.

Outro problema do evento foi o line up de artistas, também feito para agradar os ouvidos dos turistas. Em vez de ocupar os palcos com atrações locais ou latinas, a organização, para evitar prejuízos, errou feio ao escalar alguns nomes caça-níqueis e que pouco ou quase nada têm a ver com um festival que carrega em seu nome o gênero jazz.

Entre eles, Simply Red, que encerrou o festival já na madrugada do domingo; Lionel Richie, com suas love songs de motel; George Benson, que ainda tem lenha a queimar quando se preocupa apenas em desfilar a virtuose de sua guitarra em vez de fazer dancinhas desnecessárias ao som de arranjos com teclados de churrascaria; o pop brega latino do nicaraguense Luis Enrique; o show solo de Raul Midon, que nada mais fez do que cantores de barzinhos; o pastiche moderninho de John Legend; e as dispensáveis India e Giovanca.

Tirando isso, o festival conseguiu ser salvo por atrações de grupos que carregam consigo o DNA da matriz africana na parte rítmica, a efervescência do veneno do sangue latino em suas composições ou a coerência com o título de batismo do festival, com artistas que se preocupam simplesmente em fazer o jazz em sua essência.

Nesse time, o destaque do evento foi a apresentação do excêntrico trompetista americano Roy Hargrove e seu quinteto, com nova vinda ao Brasil confirmada para o ano que vem, no Bourbon Street. Assim como Hargrove, quem também deu uma aula de jazz - apesar do atraso e das restrições tacanhas para que o público não tirasse fotos durante seu show -, foi a cantora americana Natalie Cole.

Na linha da quentura latina, quem também brilhou foi o pianista dominicano Michel Camilo com seu trio, os velhinhos cubanos do Sierra Maestra, as gratas surpresas curaçolenses, como o pianista Randal Corsen e a big band Tumbao, com os locais Igort Rivas Comas e Arnell Salsbach, o baixista e cantor camaronês Richard Bona, também confirmado para o ano que vem no festival de jazz de Paraty, e a única atração brasileira no evento, Sérgio Mendes.

Com fácil circulação e boa sinalização entre os palcos Sam Cooke (principal), Celia e Sir Duke, uma série de banheiros químicos, grande área de alimentação, mas com preços exorbitantes, e o alto som de um palco invadindo o outro, o Curaçao North Sea Jazz Festival deixou uma agradável primeira impressão. Espera-se apenas que as próximas edições privilegiem artistas caseiros que pouco ultrapassam os limites da ilha de 175 mil habitantes.

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