Sangue de Cristo tem poder

Uma jovem veio até minha casa, está fazendo um TCC de literatura contemporânea e queria uma entrevista, além de ver como vive um escritor. Em geral, não gosto que "devassem" minha casa, é meu canto privado, meu refúgio. Ela insistia em andar, ver, anotar, e eu numa saia-justa, tentando segurar. Ela simplesmente saiu andando, foi parando aqui e ali, indiferente ao meu cerco. Minha vontade era mandá-la embora. Fiquei até com medo que fosse a "olheira" de um ladrão. Vivemos todos nessa neura. Mas ela tinha vindo recomendada por uma amiga professora.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2010 | 00h00

A casa acabou de sofrer uma reforma, cheirava ainda a tinta nova. A jovem, de repente parou na frente de um vaso com uma planta exuberante, não deixamos de ter um verde em casa.

- Que beleza, disse, enquanto acariciava com delicadeza uma das folhas.

A empregada ia passando, parou, assustada, olhou, persignou-se. Nunca usei essa palavra, digo mesmo, como no interior, "fez o nome do padre", e se foi, olhando para trás com o rabo dos olhos. A jovem prosseguiu, parou diante das cortinas novas, trabalho delicado de uma prima, a Marilda.

- Que maravilha! Onde compraram? É design? Você e sua mulher não querem me vender esta, encomendar outra?

- Não podemos, foi feita especialmente para esta janela, tem uma ligação com a vista, a paisagem.

- Nossa! Ainda por cima é personalizada. Mas eu queria é essa! Pena!

A empregada, a distância, mostrava-se preocupada. Quando a jovem se afastou, ela correu até a cortina, e fez gestos enérgicos, "descarregando", como se diz. Dali em diante, ficou atenta, fingindo arrumar uma coisa aqui e outra ali, na cola da jovem que era até simpática. Foi quando ela olhou para uma fruteira de metal de Maria Bonomi, grande amiga. Ganhei na época em que trabalhamos juntos na peça teatral A Última Viagem de Borges. Texto meu, cenário e figurinos de Maria.

- O que é isso? Que deslumbre! Preciso ter uma! É peça única?

- Não sei se é única, acredito que sim.

- Assinada?

- Claro, me orgulho dela.

- Quem assinou?

- Maria Bonomi.

- Maria Bonomi. Você tem o endereço? Me dá, por favor! Tem certeza que não quer se desfazer desta? Tão bonita!!!

- Como vou me desfazer do presente de amiga dileta?

- Não me diga que ela frequenta sua casa!

- Confesso que é uma falha minha. Vou mais à casa dela, é uma das minhas descortesias.

- Então?... Me vende.

- Também não vou fazer essa descortesia com a Maria. Não posso, nem quero.

A empregada persignou-se de novo. Quando a jovem se afastou, ela foi até a fruteira, passou um pano, fez os gestos de "descarrego", passou por mim, avisou entre dentes.

- Cuidado! Cuidado com o olho gordo, vou fazer uma oração. Vá pensando Sangue de Cristo tem poder.

- Bobagem, ela está gostando e não se contém.

- Bobagem? Lá em casa entrou um olho gordo assim, morreram todas as plantas, quebrou meia dúzia de pratos e uma jarra de cristal.

- Não dou muita bola para essas coisas, mas se você acredita, me proteja você.

A jovem chegou a um pequeno terraço, onde está uma das coisas mais amadas da casa, uma jabuticabeira num vaso. Frutas dulcíssimas, ela nos espanta a cada floração.

- Não acredito, vocês têm jabuticaba em apartamento!

Esperei que perguntasse: assinadas? Não perguntou. Percebi que estava entrando na da empregada, contive-me. Outras perguntas vieram, até que ela decidisse sentar e conversar. Ligou o gravador digital, começou: "Entrevista com o escritor Luis Ignácio de Loyola..." Mandei que parasse.

- O que houve?

- Por favor, Luis Inácio é o Lula, sou apenas Ignácio de Loyola.

Estou acostumado, radialistas ou repórteres de televisão também começam assim. Quando fui depor na CPI da Bancop, aquela que enganou um monte de gente, recebendo o dinheiro e não entregando apartamentos, o deputado do PT que me inquiria repetia: "Senhor Luis Inácio." Todos riam. Fazer o quê? O Lula aparece tanto, fala tanto, ainda mais agora com a campanha, levando a Dilma a tiracolo. A entrevistinha com a moça correu direito, ela sabia o que queria. Uma hora, deixei a sala em busca do diário de trabalho de um romance, demorei a voltar. Finalmente, a jovem se despediu. A empregada correu.

- No que o senhor saiu, a moça veio, queria ir até o quarto olhar, precisava de ideias para a reforma dela. Depois, entrou na cozinha, adorou o guarda-louças, ficou em frente, abriu para ver. No que ela abriu, os copos que eu estava lavando caíram de minha mão na pia. Quebraram dois. Não adiantou eu passar o tempo rogando: Sangue de Cristo tem poder! Sangue de Cristo tem poder!

Não sou muito de acreditar nessas coisas, sou meio fatalista, acredito em forças da vida, o que tem de acontecer, de bom ou de ruim, acontece. Mas dois dias depois nossa planta estava murcha. E as flores da jabuticabeira secaram. Verdade que deu uma ventania violenta, mas elas, as flores já aguentaram outros temporais. Será que tem coisa? Lembrei-me que nos tempos em que editei Planeta, dedicada ao poder da mente, ao sobrenatural, aos universos paralelos e civilizações desaparecidas, vi tantas e de tudo, que sei que algo existe no ar.

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