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Sandra Corveloni retorna a Molière

Premiada em 2012, diretora volta ao autor francês para criar a peça ‘Doente’

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S . Paulo

24 de outubro de 2013 | 19h29

Na última edição do Prêmio Shell de Teatro, um azarão arrebatou sozinho três troféus. Depois de estrear sem muito alarde e sem grande atenção da imprensa, a montagem de L’Illustre Molière terminou 2012 consagrada como uma das melhores do ano. Agora, é a vez do mesmo grupo, a Cia. D’Alma, e a mesma diretora, Sandra Corveloni, voltarem ao universo do grande comediógrafo francês para criar Doente.

Com estreia marcada para hoje, no Teatro da Aliança Francesa, a peça toma como base o clássico do século 17, O Doente Imaginário. Mas não se restringe a ele. Bebe em vários dos escritos em que Molière tematizava a relação do homem com a medicina, entre eles O Senhor de Porqueiral. “Último texto dele, O Doente Imaginário não é uma de suas melhores obras. E o nosso foco nessa montagem era a hipocondria. Essa mania que a gente tem de querer um remédio para tudo, uma fórmula mágica”, comenta a diretora.

A ressonância atual do tema incentivou a criação do espetáculo. “A gente hoje vive emparedado, com medo. Mais ou menos como esse personagem”, pontua Sandra. “Só que não dá para chegar e dizer isso para a plateia. O que interessa é encontrar uma poética para falar de tudo isso.” Na obra evidencia-se a busca por um teatro popular, que consiga aliar diversão a uma comunicação eficiente com a plateia.

Reconhecida especialmente por seu trabalho de atriz, Sandra Corveloni criou o grupo com a intenção de se deter sobre o universo cômico. “Apesar da minha trajetória ligada a papéis dramáticos, tenho um pé na comédia”, diz ela, reconhecida com a Palma de Ouro no Festival de Cannes por sua atuação em Linha de Passe.

Traço essencial em L’Illustre Molière era a presença da música. A tônica se repete em Doente, com atores cantando e tocando instrumentos em cena. Mas o caminho trilhado desta vez difere do apego a canções renascentistas que surgia na montagem inaugural da companhia. “É uma sonoridade mais experimental. Com muitas onomatopeias, barulhos, um estado musical que serve para contar a história”, observa a encenadora.

Reduzido a uma cama hospitalar e paredes brancas, o cenário foi concebido a partir de pressuposto semelhante ao da trilha sonora. Descola-se de qualquer referência à França de quatro séculos atrás e localiza as ações em lugar e época indefinidos.

Em O Doente Imaginário, Molière satirizava a medicina por meio de Argan, personagem que vive acamado, às voltas com remédios, incontáveis médicos e tratamentos. Ainda que não possua, de fato, nenhuma enfermidade.

Nessa versão da Cia. D’Alma, o protagonista permanece o mesmo. Mas as figuras que gravitam em torno dele mereceram algumas adaptações. As três filhas de Argan, por exemplo, tiveram suas características amalgamadas e tornaram-se uma só. “Não buscamos intérpretes para os papéis que estavam descritos no texto. Mas o contrário. Respeitamos os traços dos personagens, mas o mais importante era encontrar um lugar para os atores que estavam com a gente”, diz a diretora sobre o grupo, que mistura veteranos do teatro paulistano, como Guilherme Sant'Anna e Paulo Marcos, a jovens recém saídos da escola.

 

CIA. REESTREIA  OBRA INAUGURAL

O espetáculo L’Illustre Molierè tem reestreia marcada para sábado. Vista por mais de 20 mil espectadores, a peça é uma comédia musical ambientada no século 17 e mostra o cotidiano da companhia teatral fundada por Molierè, além de momentos marcantes da carreira do artista.

 

DOENTE

Teatro Aliança Francesa. Rua General Jardim, 182, V. Buarque, 3017-5699. 5ª e 6ª, às 21 h. R$ 40. Até 29/11.

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