Sandra Cinto ocupa a Casa Triângulo

Em seu mais novo trabalho, umainstalação feita especialmente para a Casa Triângulo, SandraCinto mostra outra vez porque conseguiu se afirmar em pouco maisde uma década como um dos grandes nomes da arte contemporâneabrasileira. Aliando os mais diferentes meios de expressão(escultura, desenho, fotografia...) ela cria uma potenteinstalação, que transforma o andar superior de um casarãoconstruído em 1924, na Rua Bento Freitas, centro de São Paulo,em um espaço ao mesmo tempo íntimo e onírico, em um comentáriosobre o desgaste do tempo e a possibilidade de reconstrução, anecessidade de reunir os cacos e criar a beleza possível pormeio dos pequenos gestos. A instalação é uma reunião de diferentes elementos, quedevem ser examinados num vaivém entre o todo e o particular.Retrabalhando elementos típicos de uma casa, como o livro (maisuma vez ela utiliza esse objeto altamente simbólico como peça decomposição escultórica, criando uma espécie de coluna instávelque sustenta a viga central da casa), a cadeira, o vaso de flor,a cristaleira e o aparador, ela cria vários núcleos poéticos,que acabam por estabelecer um todo coerente e complexo. O nexo entre os mais diferentes elementos - assim como asensação física, quase concreta, de que estamos submersos numespaço tangível - é reforçado pelo fato de tudo nessa casa estarpintado de um verde estranho, refrescante e lúgubre. Em alguns casos, o que está presente é a lembrança doobjeto, transformado em escultura, como a peça em forma deaparador que recebe o visitante logo na primeira sala. Com um pétorneado, outro absolutamente retilíneo e uma larguraincompatível com os padrões normais, essa peça serve de apoiopara um dos trabalhos centrais da mostra: três fotografias nasquais Sandra introduz a questão do tempo. Na primeira delasvemos uma cadeira velha, na própria casa em demolição onde aartista a encontrou. Na segunda imagem, o móvel aparecerecuperado num belo parque, cercado por uma avó e seus netos(uma homenagem de Sandra à avó, morta recentemente). Um dos meninos olha para o passado com uma luneta depapel; o outro para o futuro, para a terceira imagem, que nãoexiste. O terceiro quadro recostado no aparador é na verdade umpapel fotográfico revelado totalmente branco. "É uma imagem dofuturo", diz a autora. O tempo também é elemento essencial nas outras peças daexposição, estando presente na mesa que sustenta as imagens deum vaso em cacos e depois do mesmo objeto recolado e cheio deflores - um exemplo da beleza que Sandra diz estar buscando nomomento. Não é à toa que seu pé repousa sobre uma frágilampulheta de vidro. Ele também é quase palpável na sala que aartista apelidou de quarto das crianças e que abriga formas maislúdicas, como um grande círculo vazado que se projeta daparede. Em quase todos os ambientes da exposição, há a presençamarcante e solitária de colunas torneadas e ornamentais, queremetem diretamente a Magritte (referência essencial na obra deSandra, com Brancusi e Giacometti) e funcionam como uma espéciede personagem anônimo, de habitante dessa casa ao mesmo tempoacolhedora e vazia, melancólica. Presença que só confirma umadas características mais interessantes do trabalho de Sandra:sua capacidade de avançar em direção a novos campos deinvestigação plástica e temática, sem abandonar elementosessenciais de sua produção anterior. Na sala dos desenhos, que perderam no detalhe, masganharam maior dinamismo, que compõem uma sucessão de cascatas eondas em diferentes tons de preto, o aspecto onírico do trabalhoé reforçado. É como se ela propusesse uma espécie de viagemassustadora e fascinante, como a realizada por Wendy e Peter Pan ou Alice no País das Maravilhas. Como no mundo do faz-de-conta,sempre acordamos, mas diferentes do que éramos antes. Afinal, osonho, como a arte, deve ter o dom de nos modificar.Serviço - Sandra Cinto. De terça a sábado, das 11 às 19 horas.Casa Triângulo. Rua Bento Freitas, 33, São Paulo, tel.3331-5910. Até 3/10. Abertura nesta quinta-feira, às 20 horas

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