Samir Yazbek examina elo entre arte e ciência

Revisitar os mitos. Eis o espírito que tem guiado o dramaturgo Samir Yazbek em seus espetáculos mais recentes e que volta a conduzi-lo na construção de Frank -1. Para criar a montagem, que abre temporada hoje no Sesc Santana, Yazbek se debruçou sobre a imagem de Frankenstein. Não se trata de uma figura mítica tão antiga como o Fausto - o médico que busca um pacto com o demônio - evocado por ele na peça Fogo-Fátuo. Porém, ainda que mais recente, o personagem criado por Mary Shelley em 1831 também ocupa lugar proeminente no imaginário do homem contemporâneo.

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2013 | 03h24

"É uma releitura muito particular, que busca enxergar, através desses mitos, coisas relevantes ao mundo de hoje", diz o autor, que também dirige a obra, ao lado do ator Hélio Cícero. Na tentativa de criar um vínculo com o presente, Frank-1 lança-se sobre a temática da engenharia genética. "Algo muito discutido em outros países, mas ainda incipiente no Brasil", crê Yazbek.

Na trama, um cientista (Hélio Cícero) se vê obrigado a explicar à sua criatura (Djin Sganzerla) que ela foi gerada em laboratório. Após acreditar durante anos que aquele homem era seu pai, esse ser artificial começa a sofrer uma série de mutações genéticas e passa a desconfiar de sua origem. "Está colocado aí o conflito entre aparência e essência, que é algo com o qual sempre lido nas minhas criações. É como se ela fosse um Frankenstein ao inverso. Ele tem uma imagem terrível que guarda um boa índole. Ela é bela, mas traz essa alma atormentada", pontua o autor.

Para contar essa história, surge em cena um terceiro personagem: o dramaturgo. Diante de uma comissão de ética do senado, esse artista teatral, que é interpretado pelo próprio Yazbek, tem a missão de narrar esse episódio, misturando lembranças e reflexões. O procedimento é semelhante àquele utilizado pelo autor em Folhas do Cedro (2010), texto no qual também havia um narrador que interferia diretamente no que deveria ser encenado. Sua aparição cumpre ainda uma outra função: contrapor a arte e a ciência. "Acaba sendo uma discussão sobre o papel do artista", diz o dramaturgo.

Retrospectiva. Além de trazer uma nova criação, Samir Yazbek e a companhia Arnesto nos Convidou abrem uma mostra de repertório. Estão previstas leituras dramáticas, workshops e a apresentação de três espetáculos. Nos dias 8 e 15/11, Folhas do Cedro. Em 22/11, haverá uma sessão de Fogo-Fátuo. Já nos dias 29/11, 6 e 13/12, o grupo retoma sua obra de maior sucesso: O Fingidor (1999).

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