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Sambuca

Durante uma semana na Sicília, andamos mergulhados em aromas doces como bailarinas turcas

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

27 Janeiro 2019 | 02h00

A lembrança mais forte que tenho da Sicília é a do perfume das laranjeiras. As memórias olfativas tendem a nos enganar, talvez as árvores que margeavam as estradas não fossem exatamente como eu me lembro, talvez nem fossem laranjeiras. Mas mantenho: eram cheirosas. Do momento em que pegamos o carro no aeroporto de Palermo até devolvê-lo, uma semana depois, em Taormina, andamos mergulhados em aromas doces como bailarinas turcas.

*

Nas estradas, entre uma ruína grega e outra, passamos várias vezes por placas que indicavam “Sambuca”, ora como direção para um lugar logo ali na frente, ou ora como propaganda do lugar.

“Sambuca, Sambuca... De onde eu conheço esse nome?”

“De ontem à noite”, disse minha mulher.

“O quê?!”

“Aquele licor que nós tomamos depois do jantar, no hotel. Gosto de anis. Meio enjoativo.”

“Enjoativo, nada. Muito bom. Lembra que o maître nos ensinou a tomar com um grão de café flambado ou sem o grão de café? ‘Com la mosca ou sem a mosca?’ Vamos pedir outra vez! Garçom! Prego! Due sambuca!”

“Não sei se eu quero...”

“Quer sim. Quando é que nós vamos ter outra oportunidade de tomar sambucas em Sambuca? Garçom, due sambuca. Com la mosca!”

Saímos a caminhar por Sambuca, depois do jantar. Sugeri à minha mulher que fôssemos espiar o clarão do vulcão Etna em erupção permanente, no horizonte, mas ela não achou graça. Perguntei se ela não se imaginava vivendo em Sambuca e ela gostou da ideia. Quem sabe, um dia...

*

Estou contando tudo isso porque acabo de ler no jornal Guardian, da Inglaterra, que a cidade de Sambuca está à venda, em alguns casos em condições especiais, como um dólar por habitação. O objetivo é repovoar a cidade, já que a maioria da sua população foi embora. O comprador se compromete a fazer reformas caras no imóvel, dentro de um prazo razoável, mas durante um período vive como um sambuquense nato, fazendo footing na praça principal e se reunindo com os amigos para o sambuca do fim da tarde, não muito perto do Etna e longe do Bolsonaro.

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