Sambista devolve Roberto ao rock

Teresa Cristina grava tributo ao Rei com ênfase em seu período mais expressivo

LAURO LISBOA GARCIA, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h53

A soma de Teresa Cristina com Os Outros resulta em tributo a Roberto Carlos. Na nova matemática da cantora, dez anos depois da estreia em gravações com um tributo a Paulinho da Viola em CD duplo, o samba é substituído pela linguagem rock-soul-funk da fase mais expressiva do ex-Rei da Juventude entre a segunda metade da década de 1960 e a primeira da de 70.

A história começou dois anos atrás, com uma pequena participação de Teresa no show da banda cantando Do Outro Lado da Cidade (Helena dos Santos). "Eles me chamaram e eu não queria que ficasse com aquela aura exótica de cantora de samba num show de rock", diz Teresa. Ela relutou um pouco, mas, diante da persistência do convite, decidiu: "Já que é para cantar rock, que seja uma música do Roberto. Lembro-me que não havia ambiente para cantar Roberto com o grupo que eu tinha, e nem me passou pela cabeça cantar músicas dele em ritmo de samba, como fazem esses grupos de pagode paulista."

O "casamento" deu tão certo que a cantora sugeriu à banda fazer um show inteiro só com músicas do repertório de RC. A atriz Leandra Leal, que pilota o projeto Rival Mais Tarde, no Teatro Rival, comprou a ideia e abriu uma temporada para a banda. "Foi um dos melhores shows da minha vida", diz Teresa.

O público, predominantemente jovem, se diversificou: fãs da cantora, de Roberto, da banda, frequentadores do teatro. Houve menos rejeição da galera do samba do que a cantora esperava. "Para mim, foi como se tivesse entrado num portal. Nunca esperava que fosse cantar essas músicas. Deu certo, a maioria eu já cantava a vida inteira, então nem precisei decorar letras, nada."

Habitualmente, para cada compositor que Teresa se propõe a interpretar, há todo um preparo, desde ouvir gravações, decorar as letras e melodias, com respeito reverente pela obra do autor, que na maioria das vezes a deixa tensa, preocupada em não distorcer o original. "Posso me emocionar com a música, mas existe uma certa tensão na execução, nesses casos. Com Roberto, senti uma liberdade que eu nem sabia que tinha. Ao mesmo tempo que ouvia a interpretação dele na minha cabeça, as músicas saíram com uma fluência que eu não esperava."

Essa "liberdade", ela diz que não sentia no samba, mas também não quer dizer que agora vá virar "uma cantora de rock". Embora tenha composto alguns, gravados por Erasmo e outros, Roberto gravou apenas dois sambas marcantes, Maria Carnaval e Cinzas (Luiz Carlos Paraná) e Ai, Que Saudade da Amélia (Ataulfo Alves/Mário Lago), dos quais Teresa se esquivou. Sua predileção é pelo Roberto da jovem guarda e do período seguinte, especialmente da década de 1970, como fica claro no CD. A exceção no repertório é Cama e Mesa, de 1981. "É um período da música de Roberto que mexeu muito comigo."

Uma das poucas canções revisitadas dele com Erasmo Carlos é a bem-humorada I Love You. Nela, Teresa busca uma relação com o samba, no personagem de terno branco. "Quis fazer disso uma brincadeira com o sambista. O samba é nossa língua universal, é a minha história. Porém, para algumas pessoas o samba virou um punhal, uma bandeira, uma moeda de troca, um negócio. É o lugar onde as pessoas adoram bater o pé e falar: estatuto tal, aquilo não pode, só pode isso. Não é sempre, mas às vezes me deparo com atitudes desse tipo. Mas é como minha mãe dizia que se fazia na roça: quando você depara com uma cobra, não faz nada, para e espera ela passar."

Sem detalhes nem inferno. Como tudo que Roberto Carlos gravou acabou se tornando música dele, poucos dão créditos para os verdadeiros autores. Conseguir liberação de diversas canções de sua autoria não é fácil. Nada o convence, por exemplo, a deixar alguém regravar Quero Que Vá Tudo pro Inferno, por convicção religiosa. Com Detalhes, carro-chefe de seu repertório, também não se mexe. Teresa tentou, mas não conseguiu ter essas duas autorizadas para gravação. "Sabia que o normal seria ele vetar, mas só pelo fato de ter liberado as outras, não me incomodei. Ele foi um anjo", diz a cantora, que nunca falou com Roberto pessoalmente.

Das 14 faixas do CD, 8 são dele com Erasmo Carlos (incluindo clássicos como As Curvas da Estrada de Santos, O Portão e Ilegal, Imoral ou Engorda) e outra só dele, Quando. Há alguns hits assinados por outros compositores - Como 2 e 2 (Caetano Veloso), Você Não Serve pra Mim (Renato Barros), Moço Velho (Silvio César) - em que Teresa evita a armadilha de mudar de gênero, cantando todas no masculino.

Diferente dos tributos de Nara Leão, Maria Bethânia e Célia, este tem maior diversidade rítmica, com ska (Do Outro Lado da Cidade) charleston/country (I Love You), rock-baião (Quando), blues (As Curvas...), valsa (Despedida). Há fãs que ainda sonham em vão com um disco em que Roberto volte a cantar rock. É irônico que parte dessa carência seja compensada agora por uma mulher que se fez no meio do samba.

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